Mauro de Souza Ventura: um homem comum, ambicioso e persistente

Conheça um pouco mais sobre o professor da Unesp de Bauru, que veio do extremo sul do Rio Grande do Sul, com um sonho e muita história para contar
Por Fernanda Sampaio Lourenço

Em homenagem ao Dia dos Professores, inauguramos a seção “Conheça” com uma matéria sobre o Prof. Dr. Mauro de Souza Ventura, que incentivou e ajudou a criação do projeto “O Campus de Bauru”. Para ele, deixamos nossos mais sinceros agradecimentos. 

O Começo 
A história do professor Mauro começa em Rio Grande, uma cidade no extremo sul do Rio Grande do Sul. Com uma família grande de seis irmãos, o docente é o terceiro filho e o último a nascer na cidade natal, na qual viveu até meados dos seus seis anos de idade. Após seu pai receber uma proposta de emprego, a família decide se mudar para Porto Alegre, onde a juventude e a formação intelectual do professor se desenvolveram. 

Mas antes, é importante destacar que dos oito aos dez anos, estudou em um colégio interno com segmento na religiosidade protestante, que ficava em uma serra a caminho de Gramado. “Eu ficava lá o tempo todo, manhã, tarde e noite, dormia em dormitórios. Uma espécie de sistema prisional”, contou. A  partir dessa experiência, nasce um sentimento de separação, uma vontade de ir embora. “Foi um trauma, por ali eu aprendi que eu teria que me virar sozinho, porque a memória que eu tenho daquele momento é de ausência dos pais”, se abriu, de forma melancólica. 

Depois de sair do internato, Mauro voltou para Porto Alegre e continuou sua formação escolar. Em 1979, concluiu o ensino médio, mas não ingressou em uma faculdade logo de cara. Durante dois anos, teve a iniciativa de se jogar no mundo das artes, e para isso, frequentava dois lugares de grande importância  na sua juventude: a biblioteca pública de Porto Alegre e a discoteca pública Natho Henn. Em 1981, ingressou na faculdade de Letras, mas desistiu porque não gostou  do curso e, principalmente, porque não se imaginava professor.  

Religião
Sua família por parte de pai, os Ventura, eram protestantes  e, até os 18 anos, Mauro seguia a religião. Entretanto, suas idas à Biblioteca Pública de Porto Alegre o apresentaram  um vasto acervo de cultura . “Eu ficava lá, deitado em uma rede no verão e eu fui descobrindo o romance, ficção e então eu descobri esse sujeito Jean-Paul Sartre, Náusea, um livro marcante”, contou.

Para ele, o filósofo francês, Jean-Paul Sartre, foi o “responsável” para que o mundo se abrisse muito além do universo fechado da religião. “Mais tarde, eu iria, assim que me tornasse independente e por força de leituras, romper com a religião e com toda essa tradição”, explicou. 

A Discoteca Pública Natho Henn foi sua porta  de entrada para o começo do conhecimento cultural musical. Por conta da religião, o consumo musical da família acabava sendo apenas o rádio. Frequentar o lugar permitiu que Mauro conhecesse nomes importantes da música como Beatles, Bob Dylan, New Young e Crosby, Stills, Nash. 

Formação
Em 1982, Mauro escolheu o curso de jornalismo na PUC-RS e começou a cultivar o sonho de mudar para São Paulo. “Eu fui desenvolvendo um sentimento não regionalista, eu sempre fui fascinado pela metrópole e pela universalidade. Rejeitava os símbolos mais tradicionais do regionalismo e isso foi muito importante para sair do sul e para abrir a minha mente”, constatou. A graduação era no período noturno, já que, durante o dia, precisava trabalhar. “Eu precisava trabalhar para ajudar a família, e logo meu pai conseguiu arranjar um emprego para mim. Eu tive a sorte de conseguir esse emprego fixo em uma empresa pública e decidi que iria para a PUC”. Nostálgico, revelou também: “Eu adorava as aulas de sábado porque era o único dia na semana que eu via o campus durante o dia”.

Ainda como estudante, participou da criação de um jornal alternativo chamado “Já”. Segundo ele, tal ação contribuiu para que se tornasse mais reflexivo. Porém, sua experiência mais marcante na faculdade foi durante o primeiro ano, quando um professor de língua portuguesa convidou alguns alunos para frequentar um grupo de estudos. “Nos sábados à tarde, a gente ia até a sala dele no centro da cidade, e ele dava aulas sobre autores franceses, ali eu descobri um outro universo que a faculdade não trazia”. Foi durante essa experiência que Mauro descobriu outro autor que seria muito importante para o desenrolar da sua história: Roland Barthes. O escritor francês era a inspiração para Mauro,  que sempre quis ser um crítico literário. 

Em meados dos anos 80, começaram os movimentos que protestavam a favor da redemocratização no Brasil, período pós ditadura militar. Como estudante, Mauro viveu a campanha das Diretas Já e a não aprovação da emenda Dante de Oliveira que instituia eleições diretas. “A transição democrática foi muito lenta. Os anos 80 foram muito difíceis, porque foi uma década de esperança e depois de decepção. No caso específico do jornalismo havia pouquíssimos empregos para nós, em Porto Alegre. Meus amigos e colegas todos, se podiam, deixavam o estado para procurar emprego em outros. Muitos foram para São Paulo, porque naquele momento, a situação da imprensa no sul era de monopólio”, explica. 

Terminado o curso de jornalismo em 1986, Mauro começou a atuar na profissão, mas o mercado de trabalho no sul não possuía muitas oportunidades. Por isso, o sonho de ir para São Paulo foi crescendo. Sua última passagem como jornalista em Porto Alegre foi em uma agência de propaganda.   

Então, em 1991, quando ingressou no mestrado em comunicação na Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Mauro se mudou com uma mala, dinheiro guardado e muita vontade de fazer dar certo.,. “Eu nasci de novo”, destacou, com empolgação, sobre a sensação de sair do estado do Rio Grande do Sul. “25 de março de 1991, eu cheguei em São Paulo, o ônibus me deixou na marginal, na Ponte Cidade Universitária, e eu chamei um táxi, entrei na USP e fui para o CRUSP”, revelou com nostalgia. O CRUSP é a moradia estudantil da Universidade de São Paulo e foi lá que o professor morou durante um ano, dividindo o pequeno apartamento com outros cinco colegas. “Foi um choque”, contou. 

Além do desejo antigo e da paixão pela metrópole, o professor não buscou apenas estudar na capital; também procurava trabalho. Para ele, sua experiência jornalística mais relevante aconteceria na nova cidade. , E, de fato, ele prosperou profissionalmente com experiências nas revistas Veja, Isto é, Visão, Editora Globo, Editora Ática e, talvez, na mais importante de sua carreira, a Editora Abril. 

A Editora Abril foi o principal veículo de informação impresso dos anos 90. O professor teve a oportunidade de trabalhar com eles no período de 1991 a 1992 como repórter, redator e prestando serviços especializados. Ao trabalhar em empresas grandiosas, Mauro conheceu grandes nomes do jornalismo como Laurentino Ramos, na revista Veja, e Mino Carta, na revista Isto é. 

Muitas vezes, trabalhar com pessoas que  admiramos parece ser um sonho. O docente também pensava assim. Ainda quando residia em Porto Alegre, era assinante da revista Isto é e admirava o editor do veículo, que na época era o Mino Carta. Anos mais tarde, foi  trabalhar na empresa e seu editor chefe era o profissional que admirava. Entretanto, Mauro descobriu que o jornalista não era uma pessoa de convivência fácil. “Mino era o chefão e assim eu descobri que no dia a dia ele era bastante difícil no trato. Acabei perdendo a admiração porque percebi que a pessoa de carne e osso não corresponde ao nome”, revelou.  

Assim que terminou seu mestrado, em 1995, iniciou  um doutorado em letras também pela USP. Durante esse período, com 26 anos, Mauro começou a dar aulas. Dessa forma, caminhamos para a relação do professor com a Unesp. Além da Universidade Estadual Paulista, atuou, também, como docente na faculdade Cásper Líbero, Universidade de Mogi das Cruzes (UMG) e Faculdade Campo Limpo Paulista (FACCAMP). 

Unesp   
A ligação de Mauro com a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” começou em 2006, quando prestou um concurso para atuar como professor. Com uma rotina árdua, indo e vindo de São Paulo toda semana, o docente crê que seu momento com a faculdade foi o crescimento de sua carreira. “Eu me descobri sendo professor, talvez eu seja um razoável, mas faço com amor. Você não consegue ensinar se não for com um pouco de afeto e carinho”, revela, com modéstia. Foi apenas em 2015 que o docente veio morar em Bauru. 

A maior saudade de Mauro e sua memória mais bonita eram as tardes tranquilas em que caminhava pela Avenida Paulista em São Paulo e também em Porto Alegre. As caminhadas na metrópole eram acompanhadas de sua primeira esposa. Eles se conheceram na USP, Rejane Bernal era estudante de artes plásticas e após seu mestrado tornou-se especialista em “História da Arte durante o Renascimento”. Os projetos em comum foram o “cupido” dos dois, e as afinidades de gostos, planos futuros e projetos intelectuais  foram responsáveis por fazer essas duas pessoas se apaixonarem e enfim, se casarem. Em 2015, depois de lutar contra o câncer, durante dois anos, ela faleceu.

Por conta de um novo corte e de mudanças pessoais, Mauro revela que mudar-se de uma metrópole para uma cidade do interior não é fácil, e que “foi doloroso sair de São Paulo”. “Foi aí que eu descobri que os finais de semana em Bauru, sozinho, são tediosos demais, é dramático”, brinca. O docente foi a cabeça do projeto de doutorado de jornalismo da FAAC. Ele afirma  que foi um processo difícil e solitário. Graças a essa ação, a fixação em Bauru começou a acontecer.

Com o tempo, o costume da calmaria chegou. Para o professor, vir para Bauru significou um segundo nascimento. Se estabilizou na cidade, encontrou um novo amor, que representou um renascimento de sua vida, ao se casar com Kátia Franzé Ventura, que trabalha atualmente no Setor de Comunicações do campus da Unesp de Bauru, e mantém, feliz, suas aulas na universidade.

Viagens
O professor, durante sua carreira, conheceu alguns países da Europa para realizar pesquisas e adquirir mais conhecimento. Sua trajetória começa em 2011, com sua primeira viagem ao continente, especificamente para Viena. Para ele, a experiência foi inesquecível. Em 2014 foi para Berlim, por uma oportunidade que surgiu a partir de congressos. Um pouco mais tarde, ele foi à Áustria para uma palestra sobre seu novo livro publicado, ponto alto de sua trajetória

Currículo
Atualmente, Mauro possui 5 livros. São eles De Karpfen a Carpeaux — Formação Política e Interpretação;Perfume numa página de Proust: Crônicas e críticas; A crítica e o campo do jornalismo; A Corte e a Cidade – Estudos de Literatura e História Cultural e Assimilation, conversion and scape: the viennese trajectory of Otto Karpfene. Além, claro,  de 70 artigos publicados, algumas coletâneas, e até o momento 15 bolsas Fapesp como orientador. É de importância destacar que o professor é o principal pesquisador brasileiro do jornalista e ensaísta austriaco Otto Maria Carpeaux. 

Mauro e seus livros (Foto: Ana Helena Masson Maiolino)

“Eu sempre quis ser um especialista, eu não podia continuar sendo só um jornalista, porque eu não conseguiria ser um ensaísta. Eu não teria credibilidade, então a Universidade, o mestrado, o doutorado e as viagens me deram credibilidade para poder escrever”, revela. O professor tem conhecimento de quatro línguas estrangeiras: inglês, francês, alemão e espanhol. Mauro ainda atua como professor na Unesp e ministra  matérias como Apuração Jornalística e Jornalismo Textual, na graduação em Jornalismo.

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