Congresso de Psicologia movimenta o Campus da Unesp

A XXXI Semana e XVIII Congresso de Psicologia teve cronograma farto e variado com atividades distribuídas durante a manhã, tarde e noite
Por João Guilherme Provasi Xavier e Bianca Gonçalves Costa

A Unesp de Bauru sediou durante os últimos dias, a XXXI Semana e XVIII Congresso de Psicologia. Com o título “60 anos do Golpe Civil Militar”. Entre muros e fuzis: A psicologia para o que ainda resta de tempo”, o evento é dedicado a impulsionar e promover a integração entre estudantes e profissionais da área, estimulando debates e trabalhos que contribuam para o progresso dos diversos campos de estudo da psicologia.

Na edição de 2024, o tema escolhido vai além das fronteiras da profissão, pois procura fazer um resgate histórico dos 60 anos do Golpe Civil-Militar no Brasil, que mergulhou o país em um dos seus momentos mais críticos. Junto a isso, o congresso relembrou as contribuições da recém regulamentada psicologia no combate à repressão e à censura.

O estudante do segundo ano, Luis Felipe Baréa, membro da comissão organizadora do evento, explica a escolha pelo título. “Entre muros e fuzis significa essa questão da ditadura. Os policiais e os militares seriam os ‘fuzis’, enquanto os ‘muros’ seriam a atuação da psicologia no interior dos manicômios. Já a psicologia para o que resta de tempo, aponta mais para essa discussão, e a partir de agora, quais serão os próximos passos?”.

O congresso teve início na segunda-feira, 4, com minicurso. Às 14 horas, foi a vez da psicóloga formada pela Unesp Bauru, Antiella Carrijo Ramos, lecionar sobre a participação social e os processos grupais no SUAS (Sistema Único de Assistência Social). O minicurso instigou os alunos a pensarem além do assistencialismo, defendendo a psicologia como ferramenta de atuação e prevenção de problemas sociais, e no desenvolvimento das potencialidades em comunidades vulneráveis.

A cerimônia de abertura aconteceu logo após, na sala 1, às 18 horas. A solenidade contou com a presença de docentes e representantes dos setores administrativos da Faculdade de Ciências e do curso de Psicologia da Unesp de Bauru.

Os presentes agradeceram pelo convite e reforçaram a importância do congresso para o progresso da área. José Remo Ferreira Brega, vice-diretor da Faculdade de Ciências, se mostrou alegre com a realização do evento. “Além do orgulho de ter o congresso, isto é algo que faz o nome da Faculdade de Ciências ir pra frente, faz o nome do curso de psicologia ir pra frente e faz bem pra todo mundo”, reitera. 

A Mesa de Abertura do evento aconteceu na segunda, dia 4. (Foto: João Guilherme Provasi Xavier)

Após a abertura, foi realizada a primeira mesa temática da semana. Com o título remetendo ao foco central do congresso, “Psicologia: Entre muros e fuzis”, a banca relembrou o desafiador  contexto do desenvolvimento e crescimento do curso de psicologia, principalmente na luta antimanicomial, e do surgimento da psicologia social e comunitária como instrumento de resistência política frente à censura. 

Entre os integrantes da mesa, estava o ex-deputado estadual, Adriano Diogo, que abordou os reflexos do golpe na contemporaneidade com o crescimento de grupos de extrema-direita. Diogo também homenageou os estudantes mortos ou desaparecidos durante a ditadura, como a discente de psicologia da USP, Aurora Maria Nascimento Furtado.

Na terça-feira, 5, a mesa liderada pela psicóloga e ativista antimanicomial, Rosangela Maria, tratou de discorrer sobre a evolução e as dificuldades da luta tanto no âmbito social quanto profissional. “É muito bom falar sobre isso na universidade, até porque falar sobre isso na época que eu estudava, em 1977, era algo proibido, um tabu”.

Durante a noite, as salas 44, 45, 48 e 50 foram reservadas para a apresentação de trabalhos de estudantes e profissionais. Com múltiplas abordagens dentro da psicologia, o momento contou com projetos sobre a luta antirracista, sobre sexualidade e identidade de gênero, e também sobre  o mercado de trabalho.

Entre os estudantes, estava Yago Felipe Dias, do quarto ano de psicologia, que apresentou seu trabalho com o título “Reflexões Sobre Movimento Dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) E A Articulação Com A Psicologia Social Comunitária”. O projeto vem de um recorte de outro trabalho maior, que aborda as relações entre o MST e a Psicologia.

Sobre sua experiência, Yago acredita que ela é muito importante, pois desenvolve as suas potencialidades. “Acredito que é essencial um espaço de apresentação de trabalhos em eventos acadêmicos, tendo em vista o espaço da Universidade como um espaço de formação pessoal e profissional, possibilitando que possamos construir novas reflexões, novos saberes e essa formação profissional e acadêmica”, comenta.

Dando início a programação da quarta-feira (6), a XXXI Semana de Psicologia da Unesp Bauru contou com o minicurso sobre “Pacto narcísico colonial: branquitude e cisgeneridade”, na parte da manhã, ministrado por Leonora Maniglia Macedo, pesquisadora do tema, graduada em psicologia e mestre em Educação Sexual pela Unesp, além de doutora em psicanálise e relações de gênero.

O minicurso aconteceu nas 40s do campus de Bauru e reuniu um público diverso de estudantes interessados em questões de gênero, raça e colonialidade. Com uma abordagem interseccional e crítica, Leonora desvendou as complexas relações e “como o eurocentrismo instaurou a hierarquia de branquitude e a cisgeneridade estrutural”, segundo ela. Sendo assim, a pesquisadora define decolonidade como “uma forma de ler o mundo que fuja da ideia eurocêntrica que nos é ensinada”.

A palestrante argumentou que esses sistemas de opressão se entrelaçam para manter o status quo e marginalizar corpos e identidades divergentes. Ao analisar a história e as estruturas sociais, a pesquisadora demonstrou como a branquitude e a cisgeneridade foram construídas como normas universais, excluindo e marginalizando pessoas racializadas e LGBTQIAP+. Leonora também enfatizou, entre os desafios do corpo transexual, a problemática do fetichismo e sexualização, em um país que, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das mulheres trans e travestis exercem a prostituição.

A programação contou com diversas palestras e minicursos. (Foto: Divulgação)

Gerando um debate intenso e enriquecedor sobre a interseccionalidade entre raça, gênero e sexualidade. Destaca-se a importância de continuar a desconstruir os discursos que percorrem a história que reforçam estereótipos, para assim seguir a luta por um maior espaço aos mais marginalizados.

Além disso, Leonora também fala sobre a importância da representatividade e de rodear-se com os seus, “quando eu me rodeio de travestis, me identifico e isso abre portas. Assim como no pacto narcísico secundário, os vínculos sociais mostram formas diferentes daquilo imposto como ‘certo’ de se portar na sociedade”, completa. 

Durante a programação da tarde, o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia Social, Educação e Saúde (NEPPEM), grupo de estudos destinados a explorar e ampliar os conceitos presentes nos estudos da psicologia social, realizou uma sessão de cinema, o CINEPEM, com a exibição do filme “O Pastor e o Guerrilheiro”.

A trama narra a história entre um pastor evangélico e um jovem que foram presos e torturados juntos durante a ditadura. Após o término da sessão, os presentes realizaram um debate reflexivo sobre a natureza da violência e da repressão durante o governo militar.

Às 19 horas, teve inicio a terceira mesa temática, destinada ao diálogo sobre a luta antirracista. O bate papo propôs uma discussão sobre os impactos da discriminação racial na realidade da classe trabalhadora, e a concepção de propostas e estratégias para seu combate teórico e prático. Hildeberto Martins, doutor em Psicologia Social, esteve presente na banca e falou sobre as condições da luta no cenário acadêmico da psicologia quando era estudante. “O que se tinha em sala de aula era que a psicologia não se interessava pelo debate racial, que o debate racial não era tema da psicologia. Consequentemente eu fiquei me perguntando se de fato era isso que acontecia, se de fato a psicologia em si não se interessava pelo debate”.

O comentário reflete a atual situação do curso, que prevê mudanças na curricularização para os próximos anos. Felipe Bareá comenta que o desejo dos estudantes é que essa nova fase do curso insira estudos sobre a luta antirracista. “A gente está bem nessa discussão, entre inserir dentro da nossa matéria, do nosso currículo, uma matéria de psicologia que envolvesse essas questões raciais, que engrandeça o nosso currículo”.

Na quinta de manhã, houve uma oficina dedicada à produção de tirinhas, relembrando a cultura do protesto por meio de desenhos durante a ditadura. Ao mesmo tempo, o debate sobre a luta antimanicomial continuou com uma oficina destinada às novas formas de escrever sobre o assunto. Além disso, a Interage Jr montou uma oficina dedicada à gestão de tempo nos ambientes de trabalho e acadêmico.

O bate-papo da noite abordou o antiproibicionismo e o abolicionismo penal, levando o título “Assinatura da Lei Antidrogas – Antiproibicionismo e Abolicionismo Penal: desafios para a psicologia na luta pela descriminalização e justiça social”. A mesa discutiu os impactos do proibicionismo sobre a realidade da população e envolveu os presentes em uma reflexão destinada à busca por soluções.

Na sexta-feira, após o término da programação durante a manhã e à tarde, ocorreu a última mesa do congresso. Com o tema “2024: da atualidade para o futuro – Psicologia e emergência climática: O que ainda nos resta de tempo”, a mesa contou com a presença de Henrique Tahan Novaes, professor livre docente da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp/Marília, e Fernanda Rasi Madi, psicóloga junguiana e indígena Kaingang.

O diálogo apontou para a relação entre a saúde mental da população e a crise climática. Fernanda destacou que no contexto das enchentes no Rio Grande do Sul, muitas pessoas tiveram sua saúde mental afetada pelo desastre. “Nós devemos pensar no impacto profundo nas suas vidas, porque essas pessoas perderam suas casas, perderam tudo. E como que a gente, enquanto profissional de saúde, vai trabalhar isso dentro de uma crítica individual? A gente tem que ter um pensamento coletivo”, ressalta. 

No sábado, 9, último dia do congresso, a atividade ficou exclusiva ao minicurso “O ABC da Psico Hospitalar”, um ramo da Psicologia da Saúde, destinada ao acompanhamento psicológico hospitalar de pacientes e seus familiares. A aula foi conduzida por Beatriz Máximo Abrahão, especialista em Psicologia Clínica Hospitalar, e Bianca Bernardes Boldrin, especialista em Psicologia Hospitalar, e teve por objetivo, apresentar a interface entre a teoria e a prática do psicólogo no ambiente hospitalar.

Os assuntos abordados durante o evento demonstram a relevância da psicologia em aprofundar temas complexos e urgentes da sociedade. A XXXI Semana de Psicologia da Unesp Bauru se encerrou, mas os ensinamentos, reflexões e debates permanecem, inspirando futuras pesquisas e práticas profissionais.

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