A Urgência de Ser Antirracista: o futuro é preto!

Por Giulia Morais

Neste 20 de novembro, dia da Consciência Negra, é impossível não refletir sobre o que significa ser negro no Brasil. Eu desejo que, um dia, os negros possam ser plenamente felizes e orgulhosos de quem são, sem que essa felicidade esteja atrelada a uma luta constante por respeito e dignidade. Afinal, em um país que se diz valorizar seus ancestrais e suas raízes culturais, 329 anos após a morte de Zumbi dos Palmares, parece que muitas das questões que ele enfrentou ainda são as mesmas: a busca por respeito, reconhecimento e igualdade, apenas pela cor da pele.

Apesar de a população preta e parda representar mais da metade do Brasil (55,5% censo 2022), ainda nos deparamos com uma realidade que insiste em marginalizar essa mesma população. São poucos os negros das universidades e muitos nas penitenciárias. Que país é esse que continua a nos diminuir, a cercear nossos sonhos e a nos empurrar para a invisibilidade? No Brasil, somos os campeões das estatísticas sobre pobreza e homicídios, mas nunca somos vistos como protagonistas de nossas próprias histórias de superação e sucesso.

Se a humanidade se tornou, como disse Ailton Krenak, um “grupo seleto que exclui uma variedade de sub-humanidades, caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes, que vivem agarradas à terra, aos seus lugares de origem”, o país se encarregou, ao longo de sua história, de nos tornar órfãos de nossa ancestralidade, ao omitir por muitos anos nos livros de história e nos museus as nossas conquistas, riquezas culturais e contribuições. Nós fomos educados a ver nossas marcas de dor como nossa única identidade, o que nos auto-censura e nos impede de nos reconhecer como somos: um povo rico em cultura, história e potencial.

Como se não bastasse isso, quando percebemos que quase todas as estatísticas e notícias são desfavoráveis ao negro, entendemos que o que se opera no Brasil é muito mais complexo do que se imagina, é algo que está introjetado em todos os níveis de representações sociais, que ora é pela mídia que faz questão de evitar se posicionar dentro de assuntos que discutem sobre a questão racial, ora é pela sociedade que perpetua e reproduz esse preconceito que se camufla de muitas maneiras. Esse racismo que vai além do estrutural e cultural, tem causado tanto na vítima quanto em quem oprime, a naturalização dessa violência.

O Atlas da Violência 2024 revelou que, em 2022, 46.409 pessoas foram assassinadas no Brasil, e 76,5% dessas vítimas eram pretas e pardas. Em um país onde o maior objetivo é sobreviver as balas que só são perdidas em nós, que nos encontram seja voltando da escola, do trabalho ou andando pelo próprio bairro, toda essa situação nos faz refletir sobre essa violência institucionalizada, que normaliza nossos corpos no chão, nossas dores, o fato de não termos direito ao luto, nem direito a vida digna, nem educação, nem lazer, nem oportunidade de condições melhores.

Apesar disso nós somos movidos pela resistência e pela esperança de contrariar todas essas estatísticas e acreditar que muitos pretinhos e pretinhas possam chegar no topo dos palcos, das salas de aula, das câmaras, do planalto e em todas as esferas existentes. E que carreguem consigo as belezas de ser quem são, de se orgulharem da própria trajetória, de acreditarem que todos os espaços podem e devem ser ocupados por vocês, porque a representatividade é uma coisa que faz diferença e toda vez que vemos um preto vencer, é vitória nossa também.

Eu espero que ainda no dia da Consciência Negra a gente não apenas relembre essas batalhas, mas que possamos deixar o recado de que o combate ao racismo, as desigualdades e os preconceitos são de todos, pretos ou não. Que o feriado possa fazer cada um se responsabilizar das atitudes, despertar por essa luta e tomar um compromisso de ser um cidadão antirracista, porque, cara gente branca, para se pensar em uma sociedade mais justa, diversa e respeitosa não basta não ser racista.

Que possamos, hoje, caminhar em direção a um Brasil onde todos, independentemente da cor da pele, possam viver com dignidade, respeito e igualdade. Feliz dia 20.

Deixe um comentário