Professor responsável pela coordenação do Observatório da Unesp, Rodolfo Langhi é especialista em práticas de ensino de ciências e astronomia.
Por João Provasi

O professor Rodolfo Langhi nasceu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e desde muito novo já demonstrava entusiasmo pelo estudo das ciências, em especial, da astronomia. Passava horas observando a natureza ao seu redor e o céu nas noites estreladas, e, como bom curioso que é, estava sempre imerso em questionamentos sobre aquela imensidão que se estendia diante de seus olhos.

Quando se formou na oitava série, ganhou de presente de seus pais um telescópio, momento de muita alegria para Langhi. Sempre incentivado a continuar os estudos na sua área, lembra com gosto das aulas de ciências, quando o professor, apesar de rígido, contribuiu muito para a sua formação.

No entanto, a experiência mais marcante para ele quando criança foi a sua primeira visita ao Planetário do Ibirapuera. Mesmo muito novo na época, ainda guarda na memória a experiência transformadora de ter um contato tão íntimo com o espaço. “Eu lembro que na sessão de apresentação, o guia explicou sobre o Cruzeiro do Sul, e ver todo aquele céu estrelado no planetário foi impressionante. Eu já gostava, e aquilo ficou marcante para mim”, relembra, com nostalgia.

O início da trajetória acadêmica

Langhi cursou o ensino médio integrado ao técnico em eletrônica pela ETE (Atual Etec), e trabalhou em algumas empresas como profissional da área. Em 1993, passou a conciliar o trabalho com a faculdade de Licenciatura Plena em Ciências pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Com a habilitação em química, Rodolfo deu o primeiro passo para realizar seu grande sonho: ser educador.

Inspirado pelo seu professor de ciências da escola, Langhi já fazia divulgação científica antes mesmo de ingressar na faculdade. Ele conta que, junto de um amigo, levava seu telescópio para a rua e convidava todos que passavam pelo local a observar. “Eu pegava meu telescópio e colocava lá no meio da rua. Falava, pessoal… e quem passava lá, observava. Eu tinha um colega meu que também gostava, e aí a gente fazia essas loucuras aí. Chamava o pessoal desconhecido… Gostava de divulgar. De divulgar bastante”.

Por esse motivo, ainda no segundo ano da faculdade, pegou algumas aulas para ministrar durante a noite. Quando concluiu a licenciatura, dedicou-se ao estudo sobre o ensino da ciência nas escolas e universidades do Brasil. Assim, em 2000, se especializou em Metodologia do Ensino Superior pela CUFSA, e, um ano depois, deu início a sua história com a Universidade Estadual Paulista de Bauru.

Em 2002, passou no processo seletivo para o mestrado em Educação Para a Ciência, aprofundando seus estudos sobre ensino científico. Logo depois, ingressou como bolsista no doutorado do próprio Programa de Educação para a Ciência, com o título de trabalho sendo “Astronomia nos anos iniciais do ensino fundamental: repensando a formação de professores”.

O propósito da carreira de Rodolfo era expandir seu conhecimento em astronomia, física e outras ciências. Ele não queria ser um cientista ou um astrônomo “tradicional”, mas sim um profissional que leva conhecimento para quem muitas vezes não tem acesso. 

“Ficar envolvido com a ciência não é só ser um cientista, né? Um cientista ia ficar enfiado no laboratório, muito provavelmente, ou um astrônomo ia ficar preso dentro de um escritório, de um observatório ou uma sala de pesquisa. Eu não ia ensinar para o público, para as pessoas. Mas eu queria divulgar mesmo. Eu queria divulgar a astronomia para as pessoas”, comenta.

Início da trajetória profissional

Ao mesmo tempo que cursava a pós-graduação, deu aulas voluntárias de Metodologia de Pesquisa por um ano e meio, até surgir a oportunidade de trabalho na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Quando terminou o doutorado, passou no concurso e se mudou para a cidade de Campo Grande, capital do estado.

Por lá, deu aulas de física para cursos de engenharia e de astronomia I e II. Também conheceu o professor Hamilton e sua esposa Isabela, ambos professores de ciência, e que desenvolveram o projeto “Casa da Ciência”. Rodolfo, então, integrou a equipe do projeto, dedicando-se à divulgação de astronomia. 

Contudo, a saudade da família se fazia presente. Retornou para Bauru em 2012 e deu início à sua segunda trajetória na Unesp, que dura até hoje. Langhi assumiu a vaga de professor assistente doutor de Instrumentação para o Ensino de Física e disciplinas correlatas, integrando o corpo docente da Faculdade de Ciências. Depois, voltou ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, desta vez como orientador.

O Observatório

Nessa nova etapa, Rodolfo Langhi também voltou a participar dos trabalhos desenvolvidos pelo Observatório Didático de Astronomia “Lionel José Andriatto”. Até que, em 2016, com a aposentadoria da professora Rosa Scalvi, o cargo de coordenador do observatório foi entregue a ele. 

Como deixa evidente no próprio nome, o observatório da Unesp é didático. Sua função é desenvolver pesquisas sobre ensino em astronomia e levar conhecimento à população, seja nas escolas ou em eventos públicos. “Normalmente os observatórios astronômicos no país, no mundo, são observatórios onde se realiza pesquisa em astronomia,propriamente dita. Às vezes, ou nunca, eles abrem para a população. O nosso caso é diferente. O projeto é para ser realmente didático. É um observatório para atender a população”, destaca Langhi.

Atividades de extensão universitária são realizadas no observatório, junto de projetos de iniciação científica, de ensino médio e para a graduação. O ponto alto, no entanto, são os serviços prestados aos munícipes de Bauru e região, com a divulgação de eventos, palestras, cursos e oficinas sobre astronomia. Atendimentos em escolas e demais instituições de ensino também fazem parte do plano de exploração científica do observatório.

Apesar da essência educacional do laboratório de observação, o professor conta que o local coopera com o desenvolvimento de pesquisas profissionais.  “Estamos envolvidos com a astronomia no nível amador, que é aquele sistema em que o astrônomo amador contribui com o astrônomo profissional. Então a gente tem alguns projetos aqui que nós coletamos realmente dados que contribuem para a pesquisa da astronomia profissional”.

Instituto de Pesquisas Meteorológicas

Durante dois anos, já empossado como coordenador do observatório, Langhi precisou assumir a supervisão do Instituto de Pesquisas Meteorológicas, o IPMet, instituto integrado ao curso de Meteorologia, que ainda era uma novidade no campus. Sobre esse momento, conta. “Foi uma experiência diferente, mas eu percebi que eu não tenho perfil para isso”. 

Em razão de ter assumido a supervisão, o professor comenta que teve dificuldade de manter em dia seus compromissos, como a produção de artigos, pesquisas e as orientações. “Eu aprendi muito…aprendi bastante…e agradeço por essa oportunidade, inclusive. Mas eu percebi, por outro lado, que não tenho o perfil. Eu não sirvo para ser chefe não…”, brinca.

Linha de pesquisa

Durante sua carreira, Rodolfo se dedicou ao desenvolvimento de estratégias de ensino em ciências que gerassem resultados positivos na formação dos estudantes. Na pós-graduação, elaborou trabalhos sobre a formação de professores em astronomia e sobre o aprendizado no ensino fundamental I e II.

Sua linha de pesquisa contempla os estudos da educação em astronomia e formação de professores, com o objetivo de propor uma comunicação atualizada sobre o ensino de ciências, com destaque para a relação entre o aluno e o professor e a utilização de diferentes linguagens para estabelecer o aprendizado de forma segura e produtiva.

Segundo ele, a matéria vem sendo sucateada ao longo dos anos, quase sumindo da grade escolar. “Tem muitos conteúdos das ciências que foram sendo retirados do currículo ao longo dos anos, e um desses conteúdos é a astronomia”. 

O professor declara que afastar os alunos desse conhecimento facilita a propagação de desinformação científica.“Que tipo de adulto vão se tornar esses alunos? Adultos que não conhecem ciência!”, questiona. 

Na contramão dessa tendência, ele ressalta que a astronomia. “É tão motivadora, desperta tanta curiosidade nos alunos, que ela pode ser a porta de entrada para outras matérias, outros conhecimentos. Sendo um ramo da física, a astronomia possui características interdisciplinares, se relacionando com a matemática, a química, a biologia e até com a filosofia.

Referências 

O professor é grande fã da literatura do russo Isaac Asimov. O escritor, naturalizado americano, foi autor de livros notáveis de ficção científica, como “Eu, Robô” e “Fundação”, os quais Langhi leu ainda quando era jovem.

Na academia, Rodolfo nutre admiração pelo trabalho do astrônomo e geofísico Roberto Boczko, professor doutor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. “Desde criança que eu ouvia falar dele. Li os livros dele. Aí, conheci ele pessoalmente, e hoje em dia a gente é amigo, e todo ano ele vem aqui no observatório uma semana com a gente fazer a semana de imersão total em astronomia”, compartilha.

Livros

Escritor, Rodolfo Langhi já publicou oito livros, incluindo um em inglês. São eles: Educação em astronomia: repensando a formação de professores; Aprendendo a ler o céu: pequeno guia prático para a astronomia observacional; Astronomia na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental: relatos de professores; H2O; Fotografando o Céu Noturno; Interfaces da Educação em Astronomia, vol. 1 e 2; e A Brief History Of Astronomy And Its Teaching In Brazil.

Rotina e hobbies

Como já deu para perceber, o professor Rodolfo tem uma rotina bem exaustiva. Além da coordenação, ele realiza bancas de TCC, revisão de textos para revistas científicas, orienta alunos nos programas de extensão e escreve artigos. “Os próprios atendimentos no observatório, os atendimentos públicos que a gente faz, como no Eclipse, a gente varou à madrugada”, declara.

Rodolfo integra o comitê de organização do Simpósio Nacional de Educação e Astronomia, o maior do Brasil, é sócio da Sociedade Astronômica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Física e coordenador do Programa Eratóstenes Brasil. Por isso, precisa sempre estar ativo no planejamento dos eventos e congressos que são realizados.

O professor mantém ainda um site, dedicado a fornecer informações diárias sobre astronomia. A página possui cursos gratuitos voltados para todas as idades e pessoas, como o “Aprenda a Ler o Céu”, módulo I e II, e links para a compra de seus livros. Para acessar, clique aqui.

Quando consegue algum tempo livre, Langhi costuma assistir produções sobre astronomia e ficção científica. A série Dark Matter e o filme Interestelar são seus favoritos, mas o professor conta que está ansioso para assistir a série “Fundação”, baseada no livro de Asimov. Rodolfo também gosta de dedicar o seu lazer para aproveitar a sua família.

Sonho

Embora tenha executado grandes projetos no decorrer de sua carreira e tenha alcançado o seu objetivo de ser professor, Langhi relata: “Meu sonho ainda é ter um planetário que caiba 120 pessoas”. Recentemente, a Unesp adquiriu o Planetário Intinerante móvel, que precisa ser inflado para ser utilizado e tem capacidade para até 30 pessoas. Rodolfo deseja que a universidade tenha um em local fixo, localizado próximo ao observatório.

“Meu sonho é um prédio, uma construção mesmo, tipo o Planetário do Ibirapuera, do Carmo… Porque o planetário é o melhor instrumento,  a melhor ferramenta  para o ensino e para a divulgação da astronomia”, esclarece. 

O planetário permite que o visitante tenha uma imersão lúdica sobre os elementos que compõem o nosso Universo. Diferentemente do observatório, no planetário é possível contemplar imagens de planetas, estrelas e nebulosas das mais distantes. “Agora, em um planetário, ele mostra essas imagens…você viaja… é um simulado. Esse é o meu projeto. Um sonho que tenho para o futuro”, finaliza.

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