RU aumentará número de refeições a partir de maio

Em entrevista ao Campus de Bauru, o Prof. Dr. José Alfredo Ulson, presidente do GAC, falou sobre mudanças no RU, a situação da moradia estudantil e as demais reivindicações dos discentes
Por Rodrigo Matias

O protesto ocorrido na terça-feira (8) foi um marco histórico para o campus da Universidade, em que mais de 300 alunos se reuniram e realizaram um panelaço, seguido de uma entrada coletiva em massa no restaurante universitário – RU.

A manifestação, articulada pelo movimento estudantil da Unesp, tinha como principais reivindicações o aumento de refeições subsidiadas no RU, o fim do sistema de reservas do restaurante (assim como a sua reestatização), a liberação do novo prédio de moradia estudantil e a gratuidade de refeições paras os estudantes que fazem parte do programa de permanência, entre outras exigências. Os estudantes chegaram a conversar pessoalmente com o presidente do Grupo Administrativo do Campus (GAC), Prof. Dr. José Alfredo Ulson, que é o responsável pelo funcionamento do RU. 

Durante o protesto foram feitas várias perguntas diretas ao professor Alfredo, pedindo soluções para as reivindicações dos estudantes. Como as solicitações não foram atendidas, O Campus de Bauru foi atrás do presidente do GAC, que nos recebeu em sua sala, localizada na direção administrativa da FEB, para uma entrevista exclusiva. Na ocasião, ele falou sobre as reivindicações dos alunos.

O Campus de Bauru: Professor, para dar um contexto geral, o sr. poderia nos dizer o que é o GAC e qual a relação entre o GAC, o RU e a moradia estudantil?

Prof. Alfredo: O GAC é o grupo administrativo do campus, que nada mais é do que um conselho por parte da Administração Geral formado pelos representantes das três faculdades (FEB, FC e FAAC) que cuidam das áreas comuns do campus. Então, espaços como o RU, a biblioteca e os anfiteatros da Universidade, por exemplo, são de responsabilidade da AG (Administração Geral). A manutenção da moradia estudantil, assim como a do RU, também é papel nosso.

 O Campus de Bauru: Hoje você é o presidente do GAC, certo?

Porf. Alfredo: Sim, a presidência do GAC é sempre revezada entre os diretores das três faculdades, que hoje em dia sou eu (FEB), a professora Vera (FC) e o professor Juarez (FAAC). O mandato dura dois anos.  Entrei em setembro de 2023 e vou sair em setembro deste ano. Depois de mim, entra a professora Vera.

O Campus de Bauru: Em relação às reivindicações dos estudantes, que é o foco dessa entrevista, um dos principais pedidos dos alunos é o aumento de refeições subsidiadas no RU. Hoje, são 1.300, um número insuficiente para atender todos os alunos da universidade. Qual a proposta do GAC para a resolução desse problema?

Prof. Alfredo: O RU começou com apenas 250 refeições, rapidamente fomos para 400, depois 800 e hoje temos 1300. O número de refeições subsidiadas aumenta todos os anos, e no dia 01 de maio vamos aumentar mais 200 refeições no período do jantar, totalizando 1500 refeições a partir de maio. Esse aumento já estava planejado bem antes das reivindicações, tanto que o documento em que solicitamos o aumento é de data bem anterior às manifestações dos estudantes.

O Campus de Bauru: Então 1500 é o número máximo de refeições que o RU comporta?

Prof. Alfredo: Hoje sim, não conseguimos produzir mais do que isso. Por isso que estamos investindo esse ano mais de R$ 300.000 em novos equipamentos para a cozinha do RU. E isso também já estava previsto, não tem nada a ver com as reivindicações.

O Campus de Bauru: Esse aumento de refeições é pedido pelos estudantes há pelo menos dois anos. Por que o aumento para 1500 refeições só chegará em maio de 2025?

Prof. Alfredo: O aumento acontece todos os anos. Mas as pessoas acham que para eu trocar um equipamento é só eu fazer uma ligação que o equipamento chega na hora. Não é assim que as coisas funcionam, aqui nós respeitamos a lei, e a lei das licitações não permite que você troque algum equipamento antes de pelo menos seis meses.

O Campus de Bauru: E com a chegada desses novos equipamentos seria possível aumentar o número de refeições?

Prof. Alfredo: Sim, daria para chegar em até 2000 refeições, mas isso depende da disponibilidade orçamentária. Os alunos muitas vezes tem essa ideia de que o dinheiro é infinito, mas não é. A gente tem que fazer todo um planejamento para fazer a distribuição dos recursos.

O Campus de Bauru: Sabendo dessas reivindicações todas, não existe a possibilidade de haver um novo planejamento?

Prof. Alfredo: Até pode existir, mas não é algo tão flexível. Recebemos R$ 23 milhões para a alimentação, para aumentar isso, teria que reunir com o Conselho Universitário, depois levar até o governo do Estado… é um processo lento.

O Campus de Bauru: Mas vocês têm essa preocupação como prioridade?

Prof. Alfredo: Sim, a gente sempre teve essa preocupação. Como eu disse, é prioridade da Unesp a questão da permanência estudantil, que envolve o pagamento dos auxílios, a questão da moradia e a questão da alimentação. E agora há uma nova frente, que é da saúde dos discentes. Mas como eu já disse, tudo no serviço público é devagar.

O Campus de Bauru: O ideal para os estudantes era contar com 6000 refeições por dia. Eles vão ter que se conformar com apenas 2000?

Prof. Alfredo: 6000 refeições é impossível. Mas acredito que 3000 é um número factível de se alcançar, mas para isso é necessário um novo prédio do RU e isso levaria de dois a três anos pelo menos.

O Campus de Bauru: Já existe um planejamento para isso?

Prof. Alfredo:  Não daria para fazer uma previsão dessa, eu não posso dar uma data. Tenho experiência em administração da Unesp. É duro a gente dar data aqui, eu não posso prometer nada. Só digo que a gente está trabalhando intensamente no sentido de atender as necessidades dos alunos. É uma prioridade da Unesp. Agora falar que no ano que vem vai ter 2000 refeições, no outro ano 3000, eu não posso garantir isso.

 O Campus de Bauru: Foi muito comentado pelos estudantes o fim do sistema de vendas antecipadas do RU. O sistema será modificado mesmo?

Prof. Alfredo: Sim, vamos mudar para que a compra seja feita um dia antes, então você compra hoje para comer amanhã. É uma experiência, vamos ver se dá certo. Se der errado, a gente ajusta. Mas o pessoal da permanência vai continuar comprando antecipado, como já acontecia antes. Esse novo sistema deve entrar em vigor no mês que vem (maio).

O Campus de Bauru: Outra reivindicação relacionada ao pessoal da permanência é deles obterem as refeições de maneira gratuita.

Prof. Alfredo: Sim, essa discussão existe já faz um tempo. Estamos conversando a respeito, deixando a ideia amadurecer. Deve acontecer, mas não consigo trazer datas, ainda precisamos debater um pouco.

O Campus de Bauru: E sobre a possibilidade de ter café da manhã no RU?

Prof. Alfredo: Essa é outra discussão antiga, depende bastante da previsão orçamentária. No campus de Marília, eles servem café da manhã e a demanda é muito baixa, há muito desperdício. Talvez aqui seja diferente, mas essa ideia ainda precisa amadurecer.

O Campus de Bauru: Algo que vem incomodando muito os estudantes é a terceirização do RU. A reestatização do restaurante universitário é uma das principais reivindicações do movimento estudantil, tanto para um refinamento no preparo das refeições e também para a melhoria das condições de trabalho. Qual a visão do GAC a respeito disso?

Prof. Alfredo: Veja bem, não é a visão do GAC. O GAC operacionaliza a política alimentar. Se a reitoria mandar fazer isso, a gente faz. Agora, essa questão da terceirização é algo que vai aumentar na universidade. Serviços como segurança e jardinagem do campus passarão a ser terceirizados. Cada vez mais compensa terceirizar alguns serviços, não apenas por uma questão econômica, mas também por uma flexibilidade administrativa. Vou te dar um exemplo: existe um acordo sindical que diz que cada servidor do RU só pode preparar 50 refeições. Então, se um dia um servidor fica doente e outro tira férias, já são menos 100 refeições. Então, trabalhar com servidores da própria Unesp no RU é muito complicado. Quando a gente trabalha com a empresa terceirizada a gente não contrata pessoas, contratamos postos de trabalho. Eu contrato 10 postos de trabalho, por exemplo, aí se um ficou doente é problema deles. E essa questão está praticamente sacramentada. Vai ser tudo terceirizado, do ponto de vista administrativo é mais interessante.

O Campus de Bauru: A reivindicação da reestatização é justamente por conta das condições de trabalho com as funcionárias do RU. Essa não é uma preocupação de vocês?

Prof. Alfredo: Lógico que é, mas isso segue o acordo sindical que eles têm. A gente sabe, por exemplo, que o salário delas é bem menor do que se fossem servidoras, mas não tem como impormos isso. A empresa paga o piso, então vale o contrato sindical que eles têm.

O Campus de Bauru: Uma das principais alegações dos estudantes em relação às condições de trabalho no RU é a alta rotatividade das funcionárias e lesões que ocorrem pelo esforço repetitivo.

Prof. Alfredo: A rotatividade acontece em todas as empresas terceirizadas, as pessoas são livres, elas podem escolher não trabalhar mais na cozinha e ir para outra área. No serviço público tem menos rotatividade porque tem estabilidade de emprego, eu não posso mandar ninguém embora. Já na iniciativa privada é assim que acontece. E em relação às lesões, a gente lamenta muito, mas são acidentes, poderiam acontecer no serviço estatal também.

O Campus de Bauru: Mesmo assim, você não acredita que a Unesp teria um cuidado maior com esses trabalhadores do que a empresa terceirizada?

Porf. Alfredo: Não sei como eles fazem o treinamento lá, mas aqui a gente é bem forte nisso. Mas a gente exige que eles façam o treinamento também. Além disso, temos regularmente a visita de nutricionistas no nosso RU, a Unesp é bem rigorosa com isso.

O Campus de Bauru: Ter o RU terceirizado é mais barato?

Prof. Alfredo: Olha, se você colocar na ponta do lápis, sai um pelo outro, mas eu prefiro trabalhar com terceirizado por essa facilidade administrativa. E isso não tem volta, é uma questão praticamente inegociável, se tornou muito mais vantajoso trabalhar com o terceirizado.

O Campus de Bauru: Em relação à moradia estudantil, hoje são 32 vagas e foi construída uma torre com a intenção de dobrar esse número. Acontece que essas outras 32 vagas ainda não foram liberadas. Por quê?

Prof. Alfredo: Não foi liberado porque o fornecedor nos entregou diversos mobiliários que não foram os que compramos. Nós compramos um colchão num valor tal, e ele entregou um colchão muito inferior. Então, nós somos obrigados, por lei, a exigir a entrega correta daquilo que compramos. Portanto, eu não posso liberar as moradias sem essa troca.

O Campus de Bauru: E há uma previsão para essa troca?

Prof. Alfredo: O prazo já foi vencido, era até o final de janeiro. Agora vamos fazer notificações judiciais para que o fornecedor efetue a troca, mas isso pode demorar uns dois meses. Não tem muito o que fazer, a lei manda assim. E tem uma outra questão: para podermos colocar gente lá, nós temos que esperar o processo seletivo da permanência dos ingressantes deste ano. Aí sim, nós vamos ranquear e ver quem é que atende às condições necessárias para ocupar a moradia. Aí a gente vai chamar, mas o processo dos ingressantes ainda está em curso.

O Campus de Bauru: Uma questão que é sempre apontada pelos alunos são as filas do RU, que estão cada vez maiores. Muito disso acontece porque há uma catraca em manutenção. Foi mandado um e-mail aos estudantes dizendo que essa catraca estaria consertada até o dia 4 de abril. O que explica o atraso?

Prof. Alfredo: A manutenção dos equipamentos é responsabilidade da empresa que cuida do RU, eles deram o prazo e não cumpriram. Mas em relação às filas nós já fizemos algumas modificações. A primeira é providenciar um cartão para cada aluno passar na catraca, assim não se perde tanto tempo digitando o número. Também vamos aumentar mais um balcão para servir a comida.

O Campus de Bauru: No e-mail que vocês enviaram aos estudantes, foi notificado o problema das entradas irregulares de alunos pelo fundo do restaurante universitário. Vocês pensaram em alguma medida para evitar isso?

Prof. Alfredo: Nós provavelmente vamos colocar uma catraca na saída também. Mesmo porque é interessante ter uma catraca lá para poder medir o tempo médio de permanência do aluno no RU. Então ele passa na catraca de entrada e aí começa a contar o tempo. Quando ele sair, o cronômetro para. E aí nós ficamos sabendo o tempo médio que o aluno fica lá dentro. Isso é um dado essencial para o dimensionamento da infraestrutura e da forma de operar do RU. E, além disso, a catraca não é cara. Eu já determinei a compra, mas as coisas aqui demoram, então deve levar uns quatro meses para isso acontecer.

O Campus de Bauru: Você não acha que o aumento do número de estudantes entrando pelo fundo do RU não é uma consequência dos problemas do RU, de ele não suportar todos os alunos?

Prof. Alfredo: Mas aí é um outro problema, a questão de entrar por trás é que o sujeito, que muitas vezes nem merecia estar comendo ali, está tomando a refeição de um aluno que pagou. É uma ação ilegal.

O Campus de Bauru: Uma situação que vem sendo cada vez mais recorrente no RU são pessoas colocando em suas bandejas uma quantidade de comida maior do que o habitual e depois se juntando com uma outra pessoa (que entrou pelo fundo) e dividindo a mesma bandeja. Essas cenas são bem fortes, não acha?

Prof. Alfredo: Sim, é bem forte, isso não pode acontecer. Se dependesse exclusivamente da gente, seriam servidas 3.000 refeições. Mas, não depende só da gente, depende de um sistema grande, que não é simples de administrar, e há restrições orçamentárias. Infelizmente, essas cenas ocorrem, não deveriam ocorrer, e a gente está sempre trabalhando no sentido de eliminar isso, mas o sistema não é rápido o suficiente.

O Campus de Bauru: Você descreveu o protesto da última terça-feira como “lamentável”. Diante disso, você pode comentar como está a sua relação com o movimento estudantil?

Prof. Alfredo: Eu sempre fui aberto ao diálogo, sempre fiz isso. Nunca tive problema nenhum em conversar com os alunos. Quem quiser falar comigo é só vir até aqui e marcar com a minha assessora. O que não dá para acontecer é chegar no ponto daquelas agressões verbais à minha pessoa. Isso realmente é um desacato e é injusto, porque eu trabalho 12 horas por dia aqui e não recebo quase nada por isso. Então, ser tratado daquela maneira é muito triste. A universidade deveria ser a nata intelectual da sociedade brasileira, e de certa forma é. Mas aquela turma que me recebeu com xingamentos… eu entendo que não deveria estar aqui. Essa agressividade, esse desrespeito não condiz com o comportamento esperado na universidade. Eu sou a favor do protesto, mas não precisa entrar no RU e comer a comida de quem pagou, isso só gera impopularidade. É só ler os comentários nas redes sociais. Não tem um positivo, eu li todos.

O Campus de Bauru: Uma situação que irritou muito os estudantes foi um e-mail dizendo que os discentes poderiam buscar outras maneiras de se alimentar sem ser o RU, como as cantinas. O que gerou o incômodo foi a comparação do RU, que custa R$ 2,50, com a cantina da FEB, em que uma refeição de tamanho médio custa cerca de R$ 20,00. Não acha que uma postagem como essa pega mal com os estudantes?

Prof. Alfredo: Eu concordo com você nessa. Não fui eu quem escreveu. Quem cuida dessa parte é o corpo administrativo da AG. Mas, de qualquer forma, a resposta não foi boa, confesso que erramos.

O Campus de Bauru: Para finalizar, professor Alfredo, tem algo que o sr. gostaria de falar para os estudantes?

Prof. Alfredo: Os estudantes têm que ter sempre em mente que a questão da permanência é uma prioridade para a Unesp. Sempre vamos trabalhar na melhoria das condições de permanência dos alunos. Além disso, gostaria que os estudantes soubessem que estamos sempre abertos ao diálogo: agendem e venham conversar! Não precisa desses protestos mais incisivos como entrar no RU, isso não agrega em nada para a melhoria do sistema. Estamos trabalhando para ajustar todas as reivindicações dos estudantes, mas isso leva tempo, é assim que funciona o sistema público.

Foto destacada: Rodrigo Matias

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