Luta por melhorias nas condições da Permanência Estudantil motivam paralisação na Unesp

Campi espalhados pelo estado aderiram ao ato. Em Bauru, a quinta-feira de paralisação contou com atividades e protestos nas três faculdades
Por João Provasi*

A paralisação ocorrida nesta quinta-feira, 8, foi mobilizada pela união de diretórios acadêmicos de diferentes campi da Unesp que reivindicam melhores condições de permanência na universidade. Com críticas ao Restaurante Universitário, a segurança alimentar dos estudantes foi a principal motivação para a ação, que contou ainda com protestos direcionados ao atraso dos auxílios permanência, a não liberação da moradia estudantil e a situação de trabalho das servidoras terceirizadas do campus.

Na Unesp de Bauru, a paralisação contou com a participação de todos os cursos da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) e de quatro, da Faculdade de Ciências (FC): Biologia, Educação Física, Psicologia e Pedagogia. Os demais, apesar de não aderirem diretamente, foram convidados e tiveram seus representantes. As atividades envolveram a confecção de cartazes, grupos de discussão temáticos e reunião do Conselho Estudantil da Unesp Bauru (CEUB).

Atitudes de protesto como as realizadas no dia oito se tornaram recorrentes na universidade, se intensificando nos últimos meses. Sem perspectivas de mudanças devido às recentes declarações feitas pelo diretor do GAC, Alfredo Ulson, os alunos voltaram a se mobilizar. Para Bianca, 20, estudante de Arquitetura, atitudes como essa são cruciais. “Só por causa da luta que a gente consegue de fato alguma coisa, como foi com o ano passado com o atraso da permanência, que a gente teve que lutar bastante, paralisar por alguns dias, para que todos os estudantes conseguissem a sua permanência”, aponta.

O Restaurante Universitário

Problemática que continua mesmo após outras mobilizações, a gestão atual do Restaurante Universitário carece de medidas efetivas que garantam acesso amplo à comida de qualidade. Pertencente ao conjunto de políticas voltadas à permanência estudantil, o RU ainda não é comum na rotina de todos os unespianos.

Dos 24 campi da Unesp, apenas 10 são contemplados por um restaurante e cidades como Botucatu, Sorocaba, São José dos Campos e Tupã ainda não têm esse sistema. Segundo os estudantes, essa situação dificulta a continuidade de alunos que não têm condições de custear sua alimentação.

Estudantes protestam na Faculdade de Engenharia (Foto: João Provasi)

As consequências não se limitam somente a quem consome, mas também a quem prepara a comida. As condições de trabalho das funcionárias do RU são reprovadas pelos manifestantes, que acusam a rotina de trabalho terceirizada de ser prejudicial à saúde das colaboradoras e de colocá-las em situação de muito estresse.

Outro problema relacionado ao restaurante universitário é a quantidade insuficiente de refeições subsidiadas fornecidas. No campus de Bauru, que conta com cerca de 6 mil alunos, são ofertadas 800 refeições para o almoço e 500 para a janta no valor de R$2,50, número abaixo do necessário e que acaba deixando muitos estudantes sem comida. “É importante a gente lutar para ter um restaurante universitário, para que todo mundo consiga se alimentar, para que todo mundo tenha essa qualidade mínima de vivência e de poder continuar estudando”, pontua Muriel Veron, 25, estudante de Arquitetura e integrante do Movimento Correnteza.

Assembleia de Comunicação

Na terça-feira, 6, foi realizada uma assembleia de comunicação social entre os cursos de Jornalismo, RTVI e Relações Públicas, para organizar a paralisação e decidir as tratativas referentes ao novo centro acadêmico de comunicação da FAAC. Os discentes dos três cursos, até o ano de 2022, eram representados institucionalmente pelo Centro Acadêmico de Comunicação Social “Florestan Fernandes” (CACOFF), que acabou sendo descontinuado.

Alunos em debate durante a Assembleia (Foto: João Provasi)

A questão em torno da criação de um novo centro para os cursos de comunicação social é o processo de dissolução que o CACOFF precisa passar, pois só pode haver outro quando esse for oficialmente extinto. É necessário, ainda, decidir se os cursos serão representados juntos, ou, devido à recente divisão dos departamentos, cada um terá seu próprio centro.

O surgimento de um novo centro de comunicação é tido como essencial pelos alunos para a continuidade de suas lutas, facilitando a organização de movimentos e atuando diretamente na reitoria da Unesp. “O CACOFF era a entidade que precisava sempre estar em comissões, indicar cadeiras para os colegiados e também lutar por questões não só gerais do campus, como da nossa própria graduação”, ressalta Arthur Macedo, 20, estudante de Rádio, TV e Internet e um dos articuladores do movimento.

A Paralisação

O cronograma de atividades do dia da paralisação foi decidido durante a assembleia e se estendeu da quinta-feira de manhã até a noite. A partir das 8 horas, teve início a oficina de confecção de cartazes no Laboratório de Design. Além dos trabalhos manuais, os presentes assistiram a transmissão via Youtube da reunião do Conselho Universitário que estava ocorrendo em São Paulo.

Alunos se juntaram para produzir os cartazes que seriam usados durante o dia (Foto: João Provasi)

Para o horário do almoço, foi organizada uma cozinha solidária com o intuito de cozinhar e disponibilizar marmitas de forma gratuita para estudantes que não conseguiram adquirir refeição do RU no dia da paralisação. A campanha foi concretizada com doações e o auxílio de voluntários que se dividiram em dois núcleos: um que cozinhou e outro que ficou responsável pelas finanças e compra dos produtos.

Segundo Arthur, a cozinha solidária é uma maneira efetiva de demonstrar força e de levar a mensagem até o GAC de que os estudantes estão unidos. “É mais uma forma de denunciar a gravidade do problema, que chegou num ponto tão crítico que a gente está tendo que se organizar para construir a nossa própria cozinha porque o RU não tá dando”, explica.

A ação foi realizada no período diurno, referente ao almoço, das 11h às 14h, e no período noturno, referente a janta, das 17h às 19h. O prato servido foi macarrão com molho e carne de soja, visando atender os alunos veganos, além de ser uma refeição financeiramente viável. O preparo das refeições do turno diurno foi realizado fora do campus e entregue na Unesp,  enquanto as refeições do período noturno foram preparadas na cozinha dos servidores técnicos da Unesp e entregues no local. 

O discente de RTVI diz ainda que, mesmo que essas ações sejam importantes para expor as reivindicações dos universitários, elas não podem parar por aqui. “Nós vamos nos unificar, aumentar nossa força e mostrar que a gente está junto. A gente vai se ajudar e se apoiar, vamos nos organizar para que todo estudante nesse campus possa ter o direito de se alimentar”.

Após o almoço, os estudantes se reuniram em frente a biblioteca, de onde iniciaram uma passeata pela Unesp empunhando os cartazes e entoando gritos do movimento estudantil. Os protestos se concentraram primeiro na Faculdade de Engenharia (FEB), seguindo até a Seção Técnica de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão, o STAEPE, depois se dirigindo até a sede do Grupo Administrativo do Campus, o GAC, e terminando na Faculdade de Ciências. Durante o trajeto, os alunos tiveram a oportunidade de se expressar.

Protestos em frente as salas do STAEPE (Foto: João Provasi)

Reunião do Conselho Estudantil

As atividades da noite começaram às 18 horas, com uma atividade cultural no bosque e a exibição do curta-metragem “Incendeia” na sala 1, avançando posteriormente para os grupos de discussão temáticos. Esse momento foi reservado para que a pauta sobre a permanência estudantil, o orçamento das federais, as cotas trans e a transfobia na universidade e o passe livre fossem discutidos individualmente antes do CEUB.

A reunião do conselho estudantil teve início às 20 horas, na sala 1, e priorizou o debate em conjunto de todas as questões levantadas pelos estudantes durante os protestos. Os presentes discutiram sobre os procedimentos adotados até então pela paralisação e deram a oportunidade para que novos atos de resistência fossem propostos. 

Ações como as promovidas pelo CEUB são fundamentais para amadurecer as lutas e engajar outros alunos a participarem das paralisações, defende Muriel. “Cada vez mais a galera da universidade conhece as pautas, e o campus tem sido cada vez mais politizado”. Ele completa dizendo que, com essa tendência de maior adesão às reivindicações, é mais fácil alcançar os objetivos almejados. “O debate está chegando cada vez mais nesses espaços e criando condições para fazer algo grande. Se estamos vendo que a perspectiva que está sendo colocada é sombria, a resposta é de luta, é de perseverança”.

Reunião do Conselho Estudantil da Unesp de Bauru (Foto: Ana Luiza Oliveira)

Para dar continuidade ao debate, o CEUB decidiu convocar mais uma assembleia para o dia 12, segunda-feira, às 18 horas, em local ainda indefinido. Essa nova reunião pretende aprofundar os assuntos já debatidos nos grupos de discussão, decidindo quais serão os próximos passos do movimento e determinar qual será o rumo da paralisação.

*Com a colaboração de Emilyn Nagate

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