Entenda o que é um centro acadêmico e como o CAFCa participa na vida dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Unesp de Bauru
Por Ana Helena Masson Maiolino
Centro Acadêmico é o núcleo de toda a rede do Movimento Estudantil; é uma entidade que representa todos os estudantes de um curso. Entre suas tarefas, realizar discussões para encontrar soluções para os problemas, seja na relação com os professores, temas vinculados aos conteúdos e currículos dos cursos, ou mesmo lidar com questões administrativas estão listadas.
Para os estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Unesp de Bauru, quem tem esse papel é o Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo Flávio de Carvalho (CAFCa). Fundado em 1999 e regulamentado em 2002 por estatuto, o CAFCa, desde sempre, lutou por questões de permanência estudantil e melhorias. Em entrevista, O Campus de Bauru conversou com presidente e diretores do órgão que explicaram alguns pontos.
O presidente e a diretora de comunicação do CAFCa, José Otávio de Jesus e Fernanda Mendes, respectivamente, contaram que a organização estava pouco ativa, por conta da pandemia, até 2023. Naquele ano, com a chapa Domo, mais eventos foram promovidos e mais alunos se engajaram, principalmente, em atos de permanência estudantil, como o pagamento dos auxílios e a curricularização do curso. Fernanda reiterou que todo o trabalho é “para que os estudantes possam permanecer com dignidade e integridade na universidade”.
A abertura das 50s
Muriel Veronezzi, diretor de assuntos acadêmicos externos, lembrou que o CAFCa se reergueu e se reestruturou, com o apoio dos alunos, quando as 50s foram trancadas. O bloco de salas é utilizado pelos cursos de Design e Artes Visuais, mas quem usufrui do espaço, diariamente, para aulas e realização de trabalhos, são os estudantes de Arquitetura e Urbanismo. As 50s ficavam abertas até 2023. No começo daquele ano, os alunos foram surpreendidos com trancas eletrônicas em todas as salas. Eles informaram que ninguém os consultou e que sequer foram comunicados.
O espaço, além de servir para a execução dos trabalhos acadêmicos, é importante para a permanência dos alunos na universidade. José relatou que, “durante o horário de almoço, até porque aqui não tem cobertura, é ruim ficar fora das salas. Todo mundo sabe o calor que é aqui em Bauru; ou quando está chovendo, a gente fica debaixo dessa cobertura pequena”. Ele completa: “todos os nossos veteranos falam que esse espaço sempre foi de permanência, que eles usavam para estudar”. Ele diz, também, que o curso de Arquitetura e Urbanismo é muito intenso. São muitos trabalhos que exigem muito tempo, fora as aulas em período integral. Sem acesso livre às salas, é bem difícil.
A Comissão das Trancas foi criada pela Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC), é composta por docentes e discentes e tem, por objetivo principal, encontrar uma solução para a questão. O relatório de análise da comissão foi favorável para os alunos: manter as salas abertas, já que eles precisam do espaço. No entanto, na reunião da Congregação, decidiu-se manter as 50s fechadas e esse é o status até o momento.
No começo de 2025, Juarez Xavier, diretor da FAAC, mandou um e-mail reiterando que as 50s devem permanecer fechadas e que, caso os alunos queiram abrir, algum professor deve ficar responsável pelo espaço.
As salas são muito importantes para os estudantes que são de outras cidades, não moram em Bauru e pegam ônibus diariamente. Geralmente, eles chegam na Unesp por volta das 7h, horário em que a biblioteca está fechada e a cidade ainda está com baixas temperaturas. De acordo com Muriel, “esses estudantes usavam as 50s para se abrigar, ter um espaço em que pudessem ficar e aguardar até o começo das aulas. É uma questão de vivência”.
Manter as 50s abertas é uma forma de minimizar as dificuldades enfrentadas pelos arquitetos em formação. “Nós temos uma carga horária de trabalho muito pesada; então, as aulas terminam por volta de 18h, você vai pegar ônibus pra voltar pra casa, jantar e só começar a fazer os trabalhos da faculdade perto das 21h, para estar aqui às 8h de novo. Muitos estudantes viram a noite fazendo trabalho”, pontua Muriel sobre a rotina.
A biblioteca poderia ser utilizada. No entanto, é um espaço, considerado pelos alunos, extremamente barulhento e muito lotado. “Eu não consigo estudar lá. Se eu venho pras 50s, o espaço é mais silencioso, dá pra estudar com mais qualidade”, comenta Muriel. Além disso, as 50s abertas possibilitam a criação de atividades que proporcionam a integração entre os cursos, como o grupo de teatro e o clube de xadrez.
Ainda sobre as trancas, Muriel conta que “o tipo de tranca que colocaram não abre por fora; então, se você sair para ir ao banheiro ou beber água durante a aula e a porta fechar, você fica trancado para fora”.
Existe, também, uma grande diferença entre as 50s e as 60s e 70s. Os estudantes das 60s e 70s ficam no chão, já que não têm espaço para esperar para as aulas da tarde. É importante destacar, também, que as 50s são muito mais vivas do que as 60s e 70s. O espaço é mais colorido, com mais pessoas e mais atividades que promovem o sentimento de pertencimento e acolhimento na universidade.
Outro ponto de conflito apresentado pelo CAFCa é a maquetaria. A Unesp de Bauru tem uma maquetaria, ambiente adequado para a elaboração de maquetes e realização de trabalhos específicos do curso de Arquitetura. Entretanto, ela fica fechada com frequência, o que impossibilita a utilização de um espaço ideal e adaptado para a formação. Além disso, é pequena, não tem material para todos os estudantes e a burocracia não ajuda também. Fernanda comenta que “pra ir lá, precisa conversar com a pessoa responsável; tem as máquinas que a gente não pode usar sozinho”. Ela complementa: “se tivéssemos um espaço nas 50s, mesas adaptadas, a adequação desse espaço para os alunos; as paredes e o teto das salas são compostos por amianto, um material super tóxico, cancerígeno; não tem mesas nem cadeiras suficientes”.
A universidade apresentou, para os alunos, argumentos que sustentam o fechamento das 50s. São eles: descuido com o patrimônio público, gasto elevado com o espaço e com manutenção. Os membros do CAFCa afirmaram que cuidar do espaço é uma prioridade, até por ser uma “segunda casa”. Existe o “dia do lixo”, em que os alunos limpam as salas, tiram trabalhos antigos para liberar espaço. Eles defendem, ainda, que os gastos com manutenção não são pelo uso deles especificamente, mas sim, pelo uso geral. “Um ar condicionado pode dar problema, um projetor pode dar problema; isso não é porque a gente não tá cuidando”, comenta José.
Outro argumento utilizado pela faculdade: os alunos, um dia, teriam impedido a limpeza das salas pelas funcionárias terceirizadas. O CAFCa diz que isso nunca aconteceu. “Elas chegam para limpar e todo mundo sai, libera as mesas. Elas estão cuidando, também, desse espaço, de certa forma, e é o trabalho delas”, sinalizaram Fernanda e José.
Quando questionada sobre as alterações provocadas pelo fechamento das salas, Gabriela Cardoso, diretora de assuntos acadêmicos internos do CAFCa, declarou: “o que eu posso dizer, como observadora, é que tudo está mais difícil; o desempenho não cai, porque se cair, a gente repete”. Conforme o que se apurou, com as salas abertas, tudo era mais prático.
O trancamento é caracterizado como vergonhoso, cínico e excludente: “não há nenhuma justificativa plausível, e mesmo assim, isso continua; passam por cima e falam que é pelos estudantes. Precarizar o curso e priorizar questões burocráticas em detrimento da qualidade do ensino não é a proposta de uma universidade pública”, comentam os entrevistados.
Curricularização e déficit
Existe um problema de curricularização da extensão desde 2023. Sobre essa questão, José afirma que, “para fazer isso, eles [coordenadores do curso] criaram uma nova disciplina, que é o Ateliê Vertical, e suprimiram três nos semestres pares: Arquitetura II, Paisagismo II e Urbanismo II. Só que, como é um currículo novo, tudo está sendo experimentado”; então, os professores estão processando e entendendo como fazer o que foi proposto. Ele sinaliza que os arquitetos e urbanistas que entraram na Unesp de Bauru a partir de 2023 ficarão com déficit na formação devido à falta dessas disciplinas, presentes em grades de outras faculdades.
Além disso, uma outra questão discutida foi a falta de disciplinas optativas para os veteranos quase formados. “Nenhum professor tem carga horária disponível para abrir uma disciplina optativa, a galera acaba durando mais no curso”, conta Fernanda.
As maiores universidades de Arquitetura do país têm sempre um ateliê, um espaço para as aulas e um outro para os estudantes ficarem e realizarem suas tarefas. “O que a gente vê aqui é um espaço que já existia, mas não é adequado”, afirma Gabriela. Ela completa: “a qualidade é muito discrepante”.
Outra diferença é a falta de professores especializados: “muitos professores que estão dando aula estão cobrindo outros professores; na maior parte das vezes, aquela não é a especialidade dele; então, não conseguimos ter um aprofundamento bom e ficamos para trás”.
Valor da formação
Os trabalhos dos estudantes de Arquitetura pesam muito na constituição da média das disciplinas. Além de materiais não convencionais, muitos deles exigem o deslocamento dos alunos até comunidades e bairros mais afastados, o que não é garantido pela Unesp – ou seja, mais um gasto. Fora isso, boa parte dos trabalhos é plotada. “As pessoas costumam gastar cerca de R$450 para poder imprimir pranchas que, depois, vão ser jogadas fora, e nem é a entrega final”, informa Fernanda sobre os trabalhos da disciplina “Laboratório de Aulas Práticas V (LAUP)” do terceiro semestre. Ela reitera que “isso é de uma matéria, a gente tem 12 matérias por semestre, em todos os semestres, e não tem nada que nos auxilie, no sentido de favorecer que a gente entregue esses trabalhos de uma forma mais fácil; não precisaria ser plotado, mas não temos nenhuma voz diante dos professores, e não é por falta de tentativa”.
O curioso é que a Unesp de Bauru tem uma plotter, impressora especializada em criar impressões de alta qualidade em grandes formatos, como mapas, plantas de arquitetura e gráficos. No entanto, os alunos não foram avisados disso e não existia um regimento para o uso do equipamento. Houve uma reunião do conselho de curso e um regulamento foi formulado, porém, na prática, ele não se enquadra na realidade vivida pelos discentes. “As regras não têm sentido: precisa de três dias de antecedência para poder imprimir usando a plotter”, conta Gabriela.
Para encerrar, é importante reiterar que as 50s são um lugar de permanência e vivência estudantil e que, como José reforça, “é uma vergonha, a gente está em uma das maiores faculdades do país e a gente pede pelo mínimo”.
Foto destacada: CAFCa






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