Após 18 anos sem entidade de representação, estudantes votam nas chapas para compor o DCE Helenira Resende
Por Ana Luiza Oliveira e Filipe Nascimento*
Nesta quarta-feira, 14, iniciou-se a eleição para os representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Helenira Resende em todos os 24 campi da Unesp. A votação, que ocorre até sexta, 16, é o principal passo para a reativação do órgão.
O DCE é responsável por unificar e articular as demandas dos alunos na universidade e funciona como a instância máxima de representação estudantil, como uma ponte que leva as reivindicações à reitoria.
No caso da Unesp, o DCE Helenira Resende homenageia a líder estudantil e guerrilheira Helenira Resende Nazareth, uma mulher preta, que foi vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e assassinada em 1972 pela ditadura militar. O diretório foi formado em 1983, em meio a congressos e mobilizações que protestavam pelo fim da ditadura.
Nos anos 2000, o diretório passou por diversas alterações em sua estrutura que culminaram em sua dissolução em 2007. Desde então, a universidade não possui um diretório estudantil unificado.
No primeiro semestre de 2024, o campus de Assis deu início às mobilizações contra a precarização da permanência estudantil na universidade, que logo foram aderidas por outros campi, os quais vêm realizando diversos protestos desde o ano passado.
O campus de Bauru passou a se movimentar no segundo semestre de 2024 e, no começo deste ano, já realizou um panelaço, seguido de um ‘entraço’ no RU (restaurante universitário). Além disso, também aderiu a paralisação, junto de outros campi, na última quinta-feira (8).
Eleições: informações essenciais
A eleição ocorre por meio de votos impressos. No campus de Bauru, as urnas estão localizadas em frente a Biblioteca, no Restaurante Universitário e no Departamento de Educação e ficam abertas das 09h às 21h.
Para votar, basta levar um documento oficial com foto, ou o atestado de matrícula (ou mostrar pelo celular no SISGRAD – Sistema de Graduação) e se dirigir a qualquer um dos 24 campi da Unesp nas urnas de votação.
Ao chegar no local, é necessário apresentar o documento ao mesário, assinar a lista oficial da unidade e, então, o voto poderá ser marcado na cédula de papel e depositado na urna.
Há duas chapas concorrentes, a “Chapa 1: É Tempo de retomada” e a “Chapa 2: Unesp por Todos os Campus”.
Chapa 1: É Tempo de Retomada
Composta por estudantes independentes e pelos coletivos Correnteza, Ocupe e União da Juventude Comunista na Unesp, a chapa um organiza-se a partir do objetivo principal de mobilizar a luta entre os estudantes.
A chapa foi formada com as propostas de retomar a força do movimento estudantil, ocupar as ruas e conquistar uma universidade feita pela e para a classe trabalhadora. Muriel, estudante de arquitetura e militante do Correnteza, contou em entrevista exclusiva que, por ser peça-chave para a mobilização, o Diretório Central dos Estudantes se insere em um contexto maior da disputa da UNE, a União Nacional dos Estudantes, que é a entidade máxima de representação dos estudantes universitários no Brasil. Segundo ele, há 30 anos, a gestão vem assumindo uma postura imobilista e esse cenário pode estar se replicando na Unesp.
“As palavras podem até convencer, mas é o exemplo que arrasta. Então, a gente quer chamar os estudantes para lutarem com a gente e estarem convencidos de que é na luta que a gente faz a mudança”, comentou Muriel.
Além disso, algumas das pautas discutidas pela chapa são a permanência estudantil, com a construção e melhoria dos RUs, a maior qualidade da moradia estudantil e o aumento da quantidade de auxílios financeiros. Também são citadas a implementação de cotas trans, PcD e do vestibular indígena.
Sobre as diferenças entre as chapas, o estudante analisou que, apesar das propostas parecidas, elas se divergem na atuação. “A gente é um movimento que, mesmo sem o DCE, está aí, organizando paralisação, assembleia e fazendo passagem em sala para chamar os estudantes. Tem que vir da base dos alunos a organização e é como a gente trabalha. Vemos muitos falarem sobre o quão importante isso é, mas, na prática, não estarem ali presentes”.
A respeito da comunicação com a reitoria, a chapa defende a necessidade de cobrar o posicionamento dela.
“Durante a paralisação na semana passada, estava tendo uma transmissão do conselho universitário, e a gente viu que a reitoria não deu abertura para falar da questão da permanência. Não foi citado como uma das prioridades”, comentou. “A moradia também não foi citada como uma das prioridades. Então, a chapa tem a visão de realmente cobrar um posicionamento, de denunciar mesmo. De estar querendo construir. A gente vai estar cobrando, vai estar pressionando”, concluiu.
Chapa 2: Unesp por Todos os Campus
Com o objetivo principal de pautar a unidade, a chapa dois é composta por 9 coletivos, como o Afronte, o Enfrente, a Juventude do PT e o coletivo ParaTodos, além dos estudantes apoiadores. Em um primeiro momento, foi proposta por esses grupos a ideia de que houvesse uma chapa unificada, que representasse a universidade sem a disputa entre chapas e que tivesse a participação de todos os alunos interessados em compor o DCE.
Apesar disso, não foram todos os coletivos que concordaram e, então, com a formação das duas chapas, a segunda passou a organizar-se a partir da ideia principal de unificar os esforços. Para a estudante de psicologia e militante do Afronte, Lucca, há uma necessidade em ter discentes de todos os campi da Unesp comprometidos com as reivindicações no diretório. “A gente acredita que a nossa tarefa é muito maior do que a gente, ou qualquer outro coletivo, consegue bancar sozinho. E aí vem a importância da pluralidade nessa chapa, a unidade. O DCE precisa atender as necessidades de todos os campi da Unesp”, relatou.
Entre as principais propostas da chapa, estão as que tangem a permanência estudantil, sendo elas o aumento de refeições no RU, com o fim do sistema de reservas; o maior número de vagas na moradia estudantil em todos os campi e o reajuste regular nos auxílios financeiros. Além da implementação de cotas trans, cotas PcD e vestibular indígena no ingresso à universidade.
“Apesar dos avanços que a gente teve em relação à permanência na Unesp, com o aumento da quantidade de bolsas e com o aumento de refeições no RU, a gente ainda tem muitas necessidades e muitas coisas ainda precisam ser feitas para garantir a plena permanência dos estudantes aqui na nossa universidade. Para que as pessoas possam se preocupar em estar aqui, em estudar e em participar das atividades, sem precisar conciliar isso com trabalho”, complementou Lucca.
Quanto às diferenças entre as chapas, a estudante destacou que, enquanto movimento estudantil, existem pautas centrais que são consenso entre ambas. No entanto, o que as diferencia são os coletivos integrantes, já que o modo de condução das atividades e as pautas prioritárias podem não ser semelhantes. Além disso, para Lucca, o que distingue uma chapa da outra é a forma como cada uma compreende a importância de compor a luta em unidade.
Sobre as propostas de diálogo entre a reitoria e os discentes, é defendido pela chapa dois que o movimento deve ser construído em conjunto com os estudantes e que a base estudantil esteja inteirada sobre os processos. Para isso, apostam na mobilização popular, na presença dos alunos e nas discussões amplas e democráticas.
Todos os estudantes da Unesp podem votar e as urnas estarão abertas até sexta-feira (16). Para mais informações, acesse os perfis oficiais das chapas no Instagram, @chapa1tempoderetomada e @chapa2dceunesp.
*Com a colaboração de Sofia Pontieri
Foto destacada: Ana Luiza Oliveira






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