Estudantes da Unesp realizam nova paralisação após convocação da UNE
Por Gabriel Oliveira
Na última quinta-feira (29), estudantes da Unesp Bauru aderiram a uma paralisação nacional convocada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em protesto contra o reajuste e os cortes nos repasses às universidades públicas. O evento marcou a segunda paralisação na faculdade no mesmo mês. Campi de diversas universidades do Brasil aderiram aos atos.
Além das pautas nacionais, os estudantes da Unesp destacaram reivindicações locais, como o fim do sistema de reserva, ampliação no número de refeições do Restaurante Universitário (RU), políticas de permanência estudantil, implementação de cotas para pessoas trans, e protestos contra o aumento da tarifa de ônibus.
Em entrevista concedida ao jornal O Campus de Bauru, Agnes Haziel, 20, estudante de psicologia e militante do coletivo Afronte, comentou sobre as motivações do Movimento Estudantil (ME) no dia. ‘‘A mobilização começou inicialmente por causa da precariedade do Restaurante Universitário: o baixo número de refeições, o sistema de reservas, as pessoas não estarem conseguindo comer devido o espaço do restaurante ser pequeno”, destacou.
“As reivindicações se ampliam também devido aos processos de requisição do auxílio permanência, o baixo número de assistentes sociais, as dificuldades para se conseguir esse auxílio, a quantidade e o baixo valor ofertado, sobretudo, essas pautas instigaram a nossa movimentação’’, complementou a estudante.
Agnes também salientou a convocação em âmbito nacional da UNE para quinta-feira , dia 29, devido ao decreto nº2.448 que corta o orçamento da educação no geral. ‘‘Isso precariza o ensino público no Brasil em relação à ciência, pesquisa, quantidade de auxílios e a manutenção geral das universidades. A União fez esse chamado nacional e entendemos, como movimento estudantil, que não poderíamos ficar de fora. Tínhamos a ideia de paralisar essa semana e resolvemos somar a essas movimentações nacionais que estão acontecendo também.’’
Os atos começaram por volta das 9h, com uma mesa de abertura realizada na sala 44. Durante o encontro, os estudantes discutiram as propostas que seriam apresentadas ao longo do dia, estratégias de comunicação dentro da universidade e possíveis causas para a baixa adesão da maioria estudantil.
No horário do almoço, por volta das 12h, alunos do campus realizaram a confecção de cartazes e a colagem na frente do RU. Por conta da baixa adesão, o ‘entraço’ previsto foi substituído por um discurso dentro do Restaurante Universitário. Foram enfatizadas as reivindicações e as lutas que estavam ocorrendo no dia, o decreto que limita o repasse da verba das universidades, e a importância dos atos que estavam acontecendo.
Também foram feitas distribuições de marmitas solidárias, alguns estudantes se voluntariaram para distribuir refeições para quem não conseguiu adquirir o almoço pelo sistema de reservas. As refeições foram produzidas na cozinha dos servidores e oferecidas na região das salas 50 e em frente ao RU. No encerramento desse ato houve a produção e passagem do abaixo assinado pela tarifa zero das passagens e aumento das frotas de ônibus que chegam até a instituição.

Atualmente, o Restaurante Universitário (RU) do campus de Bauru produz cerca de 1.500 refeições por dia — sendo 800 no almoço e 700 no jantar. Esse número, no entanto, é insuficiente diante da demanda de estudantes da universidade, que ultrapassa os 6.000 matriculados. Na prática, isso significa que menos de 25% da comunidade estudantil consegue acesso diário às refeições oferecidas pelo RU.
Tainá Guedes(23), estudante do curso de Psicologia, comentou sobre o impacto da situação do Restaurante que afeta o seu, mas também o cotidiano de diversos alunos que dependem desse serviço ‘‘O número de refeições é insuficiente, por mais que tenha ocorrido um aumento em 300 refeições. Me afeta diretamente, sou do Integral, faço matérias no noturno, passo o dia todo aqui, assim como outros estudantes. Acredito que seja uma pauta essencial, pelo menos em minha visão’’
Ao entardecer, foi feita uma reunião nas dependências das salas 50, onde ficou decidido, após breve conversas realizar uma produção e colagem de lambes com a frase ‘sem comida, sem aula’ por toda a universidade, ato esse que contou com a ajuda de membros filiados aos coletivos dos movimentos Afronte e Correnteza.

No fim da tarde, se promoveu uma mesa sobre Cotas Trans, na qual foram apresentados dados que desmistificavam narrativas tendenciosas sobre pessoas trans. O espaço foi aberto para que quem se sentisse à vontade, pudesse contar sua história, dividir dificuldades com os presentes, expressar suas experiências. Foram compartilhados relatos emocionantes, que demonstravam a força e a resiliência de quem estava lá, para que pudessem chegar no momento de contar seu passado e passar uma mensagem de esperança aos presentes.
Ao anoitecer, se iniciaram os Grupos de Discussão (GD), com o intuito de promover um espaço para conversa e compartilhamento de ideias entre os discentes que ainda se faziam presentes, estenderam-se na região das salas 40, alguns desses GD eram os de Passe livre e direito à cidade, Cotas trans, Orçamento, RU e permanência estudantil, acessibilidade e saúde mental no campus.
Para encerrar a programação, uma atividade cultural foi realizada como forma de celebrar a arte, promover o acolhimento e oferecer um momento de respiro coletivo após um dia de mobilização. A ação contou com apresentações musicais ao vivo, performance artística, discotecagem com DJ e participação de uma banda, reunindo os estudantes que ainda restaram em um ambiente de troca, expressão e afeto.
Ao final de um dia com diversas atividades, foi mostrado que a mobilização da Unesp Bauru não se trata apenas das reivindicações pontuais, mas também de uma luta pela permanência, inclusão e dignidade dos discentes na universidade. A paralisação evidenciou a força coletiva dos envolvidos no movimento, mesmo diante de desafios como a baixa adesão. Em meio à escassez de recursos, atos como esse devem reforçar que, para além da sala de aula, a universidade também se constrói nos atos políticos, nas rodas de conversa, nos cartazes colados e nas marmitas compartilhadas.
Foto destacada: Mensagens coladas na entrada do Restaurante Universitário – Marcelo Júnior






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