O preço da universidade pública em Bauru

Entenda as principais diferenças entre as políticas de permanência nos campus da USP e Unesp nesta cidade universitária
Por Guilherme Barbeito e Graziela Aguiar

De 2018 a 2022, a taxa de desistência na rede pública de ensino superior na região de Bauru chegou a 41,5%, segundo dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil, do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo). O dado escancara uma realidade: a barreira de acesso à universidade pública não se restringe ao vestibular. Permanecer na universidade tem se tornado um desafio para milhares de estudantes em todo o país.

Seja por falta de recursos financeiros, pela dificuldade de acesso a auxílios, pela distância de casa ou pela falta de estrutura, o caminho até a conclusão do diploma nem sempre é linear. 

Em Bauru, onde estão localizados os campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e da USP (Universidade de São Paulo), essa realidade é contada nas histórias de alunos que, todos os dias, equilibram os desafios da vida acadêmica com os custos de morar longe da família e sustentar a própria formação.

Unesp

Com 31 cursos e cerca de 5,8 mil alunos de graduação matriculados, o campus da Unesp em Bauru é o maior da instituição. A universidade pública, que não exige pagamento de mensalidades, atrai milhares de jovens de todo o Estado. Mas, embora o acesso seja gratuito, os custos para viver na cidade — como aluguel, transporte e alimentação — tornam a permanência um desafio constante.

Desde 2013, a Coordenadoria de Permanência Estudantil (Cope) busca enfrentar a evasão decorrente da vulnerabilidade socioeconômica, oferecendo auxílios financeiros e vagas na moradia estudantil. Em 2025, foi criada a Pró-reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (PROADE), um novo órgão que age de forma transversal a COPE  e outras coordenadorias, dando um suporte burocrático às políticas de permanência.

Apesar de ser um marco na assistência estudantil da universidade, a Cope não tem dado conta de acompanhar a realidade dos alunos. As principais queixas são conhecidas há anos: atraso na liberação dos auxílios, que podem demorar até dois meses; um processo seletivo burocrático e visto como desestimulante; e auxílios com valores defasados frente ao custo de vida.

“O processo seletivo da permanência é super burocrático, chato. Ficam te devolvendo documento que não faz sentido. Parece que é feito pra você desistir”, relata Tharek Alves, 21,  estudante que depende do programa. 

A vice-diretora da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC),  Tarcila Lima da Costa, atual responsável pela permanência estudantil no campus, afirma que as regras são estabelecidas pela legislação da universidade, que exige avaliação técnica de assistentes sociais. Segundo ela, há tentativas de contratar mais profissionais para agilizar o processo e também medidas para orientar estudantes veteranos sobre os documentos exigidos.

“Essa é uma preocupação de todos nós. Estamos aqui para pensar no acesso e na permanência dos estudantes, para que isso aconteça da melhor maneira possível”, afirma.

Em maio deste ano, foi criada a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (Proade), que traz um peso institucional maior para as políticas de permanência. Mas, enquanto a gestão se movimenta no campo burocrático, a urgência dos estudantes segue sendo imediata e cotidiana.

Moradia estudantil: 12 anos sem mudanças

Inaugurada em 2013, a moradia estudantil da Unesp Bauru foi construída com capacidade para 32 pessoas. Desde então, não sofreu ampliação. Localizada fora do campus, perto do Departamento de Educação Física (DEF), a moradia carrega problemas desde sua abertura: superlotação, insegurança no trajeto até a universidade e falta de estrutura suficiente.

O problema já ganhou repercussão: em dezembro de 2017, uma reportagem da TV TEM mostrou que o local, projetado para abrigar 32 pessoas, estava com 61 moradores — quase o dobro da capacidade. Oito anos depois, a situação pouco mudou.

Uma nova estrutura para moradia chegou a ser construída e está pronta, mas permanece fechada, sem previsão de abertura. O atraso se deu por conta de um desalinhamento na compra de colchões. Segundo a administração da Unesp, foram entregues colchões com  qualidade menor do que a prometida no momento da compra.

Restaurante Universitário

Resultado de anos de mobilização e luta estudantil, o Restaurante Universitário (RU) da Unesp foi inaugurado em 2015, completando uma década neste ano. À época, já era administrado por uma empresa privada e oferecia apenas 300 refeições diárias, todas no período do almoço.

Dez anos depois da sua inauguração, o RU permanece sob gestão de empresa privada e oferece 1.500 refeições diárias — 800 no almoço e 700 no jantar —, menos da metade da capacidade prevista como viável em 2009.

O preço é de R$2,50 para alunos da graduação e da pós-graduação. Para visitantes, servidores técnico-administrativos e docentes do campus de Bauru, o custo é de R$13,50.

Para garantir as refeições, os alunos devem estar cadastrados no SisRU e realizar a compra com um dia útil de antecedência. No entanto, a baixa quantidade de refeições comparada à demanda faz com que a oferta acabe rapidamente. Para driblar isso, os alunos criaram grupos de Whatsapp com centenas de pessoas para compra e revenda de RU. Mesmo assim, a “concorrência” nesses grupos é ainda maior do que no SisRu, sendo muito difícil conseguir as refeições.

Além disso, a qualidade e, principalmente, a variedade do cardápio são alvo constante de críticas de alunos que utilizam o RU. “Gostaria que tivesse mais variedade de refeições. A impressão é que estamos sempre comendo o mesmo frango” afirmou Raul de Lara, 19, estudante da Unesp.

Movimento Estudantil

Após um período de desmobilização desde a pandemia, o movimento estudantil retomou força. Em 20 de março, o Conselho Estudantil (CEUB) iniciou atos por mais refeições no RU e liberação de auxílios para calouros e veteranos.

Menos de três semanas depois, estudantes protestaram em frente ao prédio do Grupo Administrativo do Câmpus (GAC). Após a manifestação, houve uma entrada coletiva no RU, com centenas almoçando gratuitamente. A administração respondeu com 200 refeições noturnas a mais, totalizando 700, e reformou o sistema de reservas com antecedência, fazendo com que o aluno deva garantir a refeição com um dia útil de antecedência.

Em 8 de maio, alunos aderiram a uma paralisação estadual, com marchas, assembleias e distribuição de marmitas. No mesmo mês, foi reativado o Diretório Central dos Estudantes (DCE) Helenira Resende, inativo há 18 anos. A chapa “É Tempo de Retomada”, do movimento Correnteza, venceu a eleição e assumiu a representação estudantil em toda a universidade.

Alunos protestam na Unesp Bauru. Foto: João Guilherme Xavier/O Campus de Bauru

E na USP, é diferente?

O cenário do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru é diferente do observado na Unesp em vários aspectos.

Em primeiro lugar, é fundamental considerar o tamanho da comunidade acadêmica que frequenta o campus. De acordo com dados da própria USP, aproximadamente 1.500 pessoas — entre alunos, docentes e servidores técnico-administrativos — compõem a comunidade universitária da instituição em Bauru.

A diferença também é evidente no número e na natureza dos cursos oferecidos. Enquanto a Unesp disponibiliza 31 cursos de graduação, a USP conta com apenas três: Medicina, Odontologia e Fonoaudiologia — graduações que, em geral, concentram estudantes de famílias com renda mais elevada.

Desde 2023, o campus da USP em Bauru conta com uma série de políticas de permanência estudantil oferecidas pela Pró-Reitoria de Inclusão e Permanência (PRIP).

O programa contempla auxílios integrais, que incluem um valor mensal de R$850,00, além de gratuidade nas refeições do Restaurante Universitário (RU); e auxílios parciais, que oferecem R$320,00, vaga na moradia estudantil e também gratuidade nas refeições.

Para receber esses benefícios, o estudante deve participar de um processo seletivo regido por edital interno, que avalia, principalmente, critérios socioeconômicos, como a renda familiar e a distância entre a cidade natal do estudante e o campus.

Em 2025, esse processo seletivo passou a ser unificado para os dez campus da Universidade de São Paulo, tornando o edital ainda mais complexo e concorrido. Segundo dados de 2023, a USP conta com cerca de 60 mil alunos de graduação. Para esse universo, são ofertados anualmente 2.200 auxílios integrais e 290 vagas em moradias estudantis.

Quando não conseguem acesso ao auxílio, os alunos costumam buscar outras formas de complementar a renda, como bolsas acadêmicas, estágios ou empregos fora da universidade.

 Gabriela Tyemi, estudante de Fonoaudiologia que recebe o auxílio desde o início da graduação, afirma que o processo é exaustivo e burocrático. “Conheço muitas pessoas que desistiram antes mesmo do processo começar por conta do volume de documentos exigidos. Às vezes, eles te vencem pelo cansaço mesmo”, relatou.

Restaurante Universitário

No RU da USP, diariamente, são servidos café da manhã, ao custo de R$0,50, além de almoço e jantar, que custam R$2,00 cada. Diferentemente da Unesp, o restaurante não adota sistema de reserva de refeições. O aluno apenas precisa comparecer, realizar o pagamento pelo aplicativo e se alimentar.

Quanto ao cardápio, são raras as críticas. Segundo relatos de estudantes, há variedade e a qualidade da comida é satisfatória. Todas as refeições incluem uma opção de suco e sobremesa, geralmente uma fruta, embora, em dias considerados “mais sortudos”, doces e chocolates também sejam oferecidos.

No entanto, quando as coisas não funcionam, os alunos cobram e se mobilizam por mudanças. Um problema crônico do bandejão eram as enormes filas que se formavam. Para resolver isso, os estudantes se organizaram em grupos de WhatsApp para distribuir melhor os horários de entrada no RU e assim diminuir as filas.

A conta que não fecha

A permanência estudantil é, na prática, um direito garantido nas legislações que regem o ensino público superior. Mas, na rotina de quem vive essa realidade, ela se parece mais com um privilégio difícil de acessar.

Enquanto a USP oferece um modelo que, apesar das limitações, consegue atender parte dos estudantes com mais estabilidade, a Unesp — especialmente no campus de Bauru — acumula anos de promessas não cumpridas. Moradias prontas, mas fechadas; restaurantes que não suprem a demanda; e auxílios que chegam atrasados ou que não acompanham a inflação.

Apesar das tentativas de avanços nas políticas de acesso à universidade pública, como a expansão da lei de cotas, a permanência continua sendo uma travessia cheia de obstáculos, onde quem não desiste, resiste.

Foto destacada: Guilherme Barbeito/O Campus de Bauru

*Esta reportagem foi inicialmente escrita por Guilherme Barbeito e Graziela Aguiar para a revista ‘Ver(a)cidade’, projeto da disciplina de ‘Jornalismo Textual’ com a Prof. Michelle Roxo.

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