Mais de 90% dos discentes dizem se sentir ansiosos por conta da carga de tarefas; Centro Acadêmico e alunos pedem por reestruturação do curso
Por Gustavo Vieira
O CAFCa, Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo “Flávio de Carvalho”, apresentou na terça-feira, dia 12 de agosto, o CENSARQ, censo que traz o levantamento de informações sobre a rotina dos estudantes de arquitetura durante os anos de graduação.
Apresentado na sala 54 para alunos e corpo docente, o censo, referente ao primeiro semestre de 2025, contou com respostas de 103 discentes a um formulário do Google com dados obtidos a partir do acompanhamento individual de dois alunos por turma durante o período de 09 de junho a 05 de julho.
Karine Souza, 21, vice-presidente do CAFCa e uma das responsáveis pela pesquisa, explica que o CENSARQ tem como objetivo expor a docência a rotina, muitas vezes invisibilizada, dos alunos ao longo da formação. “Arquitetura é um curso em tempo integral, temos uma demanda de trabalho muito grande. Temos pouco tempo de sono, de lazer, de fazer refeições. Então a gente pensou em colocar isso em dados reais para apresentar aos professores”, conta.
Segundo resultados obtidos pelo formulário, 74,8% dos estudantes se sentem muito sobrecarregados devido às demandas e a estrutura do curso. Karine mostra que a principal crítica é referente ao LAUP (Laboratório de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo), disciplina prática de caráter projetual. Para o LAUP, são necessárias matérias de apoio teórico que também pedem trabalhos projetuais. Porém, esses trabalhos não deveriam ser exigidos.
Em entrevista ao O Campus de Bauru, o Professor Doutor Paulo Masseran, atual coordenador do curso, explica que há professores que exageram na carga horária de suas aulas. “Essas disciplinas teóricas não devem dar nenhuma atividade de projeto, mas alguns professores não entendem isso e acabam extrapolando, gerando uma carga horária extraclasse muito grande”, diz.
O professor Paulo elucida que, na Unesp, cada docente tem autonomia para gerir sua disciplina. As coordenações podem interferir nas matérias referente ao que é postulado no Plano de Ensino e no PPP (Projeto Político-Pedagógico), onde há o conteúdo, ementa e carga horária das aulas. Entretanto, não há definição clara em relação à carga extraclasse nesses documentos
Assim, 57,3% dos alunos de arquitetura entregaram, no mínimo, cinco projetos acompanhados de seminários e relatórios obrigatórios no primeiro semestre de 2025, aponta o censo. A vice-presidente do centro acadêmico pontua que esses projetos são extremamente desgastantes e que há uma queda no desempenho dos estudantes devido à sobrecarga.
“Então, ao invés de um trabalho no semestre, temos cinco. É como se a gente fosse uma máquina, a gente tem que projetar, projetar, projetar. Não conseguimos nos aprofundar sobre um assunto que temos interesse, não temos tempo para experimentar as coisas. A gente vai por um caminho muito óbvio”, constata Karine.
Aliada à alta carga de trabalhos, alunos reclamam da falta de infraestrutura necessária para comportar o curso de arquitetura na Unesp. Hoje, não há o funcionamento adequado da maquetaria e a universidade desafia a permanência dos alunos nas salas 50s. O Campus de Bauru se aprofundou nessas dificuldades em reportagem sobre o CAFCa.

Com a junção destes fatores, o censo mostra que há impactos reais à saúde física, mental e emocional dos alunos, principalmente aos finais de semestre. Em relato anônimo colhido pelo Centro Acadêmico, um estudante revela ter tido crises e se sentir esgotado durante o período de aulas. “Eu realmente achei que iria morrer. Foram dias seguidos sem dormir, sem comer direito, eu chorava de cansaço e estresse”, disse. A pesquisa indica que 91% dos estudantes dizem se sentir frequentemente ansiosos devido a carga de trabalhos.
Alimentação e sono dos discentes são significativamente afetados nos momentos finais das aulas devido à complexidade e prazos dos trabalhos, afirma o levantamento. 52% dos estudantes fazem, no máximo, duas refeições por dia durante esse período, sendo majoritariamente feitas no RU. Enquanto ao sono, a média é de cinco horas por noite, duas horas abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A apuração feita pelo CAFCa aponta que a maior parte dos alunos dedica seu tempo livre para fazer trabalhos, seja nos dias dos finais de semana, nas janelas entre as aulas e durante as madrugadas.
“No final do semestre é sempre muito tenso. Somos um dos últimos [cursos] a deixar a Unesp. Começamos a ter problemas interpessoais porque passamos muito tempo juntos; Então todo mundo fica num estado de calamidade.”, comenta Karine.
Recepção da docência
Paulo Masseran diz que o censo realizado pelo Centro Acadêmico de Arquitetura foi bem recebido entre os docentes e que os dados levantados são de grande valia para o processo de avaliação do curso. Masseran também relembra que o atual PPP, em vigor desde 2023, foi feito de forma tumultuada e está sendo debatido.
“Não houve tempo, na verdade, para um debate mais amplo entre professores e alunos. Mesmo dentro do corpo docente, foi mínimo o tempo que houve para debate. Então esse projeto, feito em 2022, deixou muito a desejar, ficou desproporcional entre os semestres e séries”, relata.
O coordenador ressalta que o curso está em “constante processo de se auto-pensar”, e que, nas primeiras semanas dos últimos três semestres, a docência se junta aos alunos em uma reunião de planejamento. “Cada professor expõe seu programa da disciplina e a gente faz essa discussão conjuntamente. Aí a gente faz o balizamento da carga horária”, diz o professor.
Mesmo com as reuniões, Paulo fala em professores que ainda cometem excessos. A solução da coordenação é o diálogo respeitando a autonomia do docente. “Eu tento mostrar de forma clara para o professor essa necessidade de controlar essa carga horária fora de sala de aula. A maioria das vezes, o professor acaba reformulando a sua disciplina”, complementa.
Masseran afirma que a coordenação mantém postura favorável à abertura plena das salas 50s na comissão competente. Também, explica que a Maquetaria se encontra provisoriamente fechada devido às reformas nos prédios que a compõem, mas que será liberada ainda neste semestre.
Fotos: Arquivo Pessoal/CAFCa






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