Em entrevista exclusiva, o professor contou sobre os desafios do cargo, expectativas para os próximos meses e comentou sobre algumas das reivindicações dos estudantes
Por Ana Helena Masson, Ana Luiza Oliveira e Guilherme Barbeito
No dia 22 de setembro, teve início a nova gestão do Grupo Administrativo do Campus (GAC) da Unesp Bauru. O Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega, também novo diretor da Faculdade de Ciências (FC), assume o posto de presidente do GAC no lugar do Prof. Dr. José Alfredo Ulson, da FEB, após um mandato de dois anos.
Como previsto pelo regulamento da universidade, os mandatos de presidente do grupo seguem uma lógica de revezamento entre as três unidades que formam a Unesp em Bauru – FAAC, FEB e FC.
O GAC é responsável por ser um órgão de administração geral, integrando as três faculdades e cuidando de questões estruturais e administrativas que são comuns a todas, como o Restaurante Universitário, a Biblioteca, os anfiteatros, moradia estudantil e demais questões como ruas, iluminação e outros.
O Campus de Bauru entrevistou o Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega, novo presidente do GAC, para entender mais sobre a visão da nova gestão e o prognóstico de metas e desafios para o mandato.
O Campus de Bauru: Professor, quais são os maiores desafios estruturais e administrativos do campus? Como o senhor pretende lidar com eles?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: O nosso campus é muito grande e os desafios são proporcionais a esse tamanho. Temos uma mata extensa ao lado e somos responsáveis por ela também. Além disso, a cidade está crescendo e se aproximando, o que traz novos problemas — pessoas circulando pelo campus, muros que não são tão seguros… é muita coisa para administrar.
A dificuldade é que a gente tem o orçamento limitado. O recurso vem do ICMS arrecadado, uma pequena porcentagem destinada à Unesp, que é distribuída pela reitoria entre todas as unidades. Assim, o “tapete” continua curto para cobrir todas as prioridades.
Precisamos pagar luz, água, limpeza, segurança… nossas despesas fixas são muito altas. O sonho é sempre melhorar o campus — tornar o ambiente mais agradável para alunos e servidores —, mas nem sempre conseguimos realizar tudo que gostaríamos.
É uma luta diária para equilibrar tudo. Parece fácil, mas não é. Temos que discutir tudo democraticamente, levar às congregações, votar e deliberar. No fim, eu sou o executor dessas decisões.
O Campus de Bauru: Quanto às prioridades para a gestão, quais são as metas que o senhor pretende alcançar nos próximos meses e ao longo da gestão?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Meu foco agora é fazer com que a reforma da biblioteca se concretize, pois entendo que é vital ter um espaço como esse para que os alunos possam ter uma vida de qualidade aqui dentro.
Pensando nisso, também temos metas para tornar o campus mais organizado; melhorar vias, estacionamentos e iluminação para que todos se sintam melhor aqui. Acredito muito na importância de o aluno viver o campus. Se escolhemos ser uma universidade pública, não uma faculdade à distância, o estudante precisa estar aqui, respirar esse ambiente. Quando o aluno está presente, o professor também fica, o laboratório funciona, os funcionários se envolvem.
O Campus de Bauru: Como o senhor avalia a gestão anterior? Há algo que precise ser revisitado ou alguma iniciativa que o senhor pretende manter?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Eu acompanhei de perto o trabalho do professor Alfredo, o diretor anterior do GAC. Já havia uma expectativa de que eu continuasse o trabalho, então estive presente nesse processo de transição.
O professor Alfredo se dedicou muito. Ele pegou um período complicado, logo após a pandemia, com o campus ainda desorganizado — contratos de limpeza atrasados, mato alto, manutenção pendente. Mesmo assim, conseguiu dar um salto de qualidade.
Se vocês andarem por aqui, verão que o campus está muito melhor: mais limpo, pintado, cuidado. Claro, não está perfeito, mas avançamos muito.
Minha intenção é dar continuidade ao trabalho dele, mantendo o campus acolhedor e funcional, um bom lugar para estudar e trabalhar..
Mas ainda há muito a ser feito. Ainda há telhados com vazamento, o Caetanão continua muito quente, a piscina tem pequenos vazamentos… E isso só falando da praça de esportes! Existem vários outros problemas em outros pontos do campus que ainda precisam ser resolvidos.
A verdade é que aqui nada está “pronto”. Todo dia é uma batalha diferente. A cada dia, surge algo novo que precisamos resolver. É preciso correr atrás, ouvir sugestões e buscar soluções constantemente, porque o trabalho nunca para.
E, às vezes, até “pega fogo”! Vocês lembram, acho que foi semana passada…
O Campus de Bauru: Como o senhor lidou com essa situação das queimadas nos arredores da universidade?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Aquilo foi um horror. O pior é que nem sempre a culpa é nossa. Às vezes, o problema vem da própria cidade e acaba nos atingindo aqui dentro. Aí temos que correr para resolver e fazer tudo voltar a funcionar.
O Campus de Bauru: Um assunto importante, que interessa bastante aos alunos e foi assunto durante a gestão anterior, é a terceirização dos serviços dentro da universidade — especialmente em relação às funcionárias do restaurante universitário (RU), à limpeza e a outros setores. Como o senhor enxerga esse cenário?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: A gente precisa olhar para isso com bastante frieza. Alguns serviços simplesmente deixaram de existir há alguns anos. Por exemplo, há quatro ou seis anos, o restaurante universitário não estava funcionando adequadamente.
Como expliquei, a reitoria é quem decide onde o dinheiro será aplicado. Então, a terceirização, a contratação direta ou o modelo de parceria são decisões de política institucional, não minhas. A Unesp não tem orçamento para contratar diretamente todos os funcionários que precisaríamos.
Hoje, temos dois modelos diferentes no campus. O restaurante universitário não é exatamente uma terceirização — ele é administrado por uma OSC (Organização da Sociedade Civil), uma entidade sem fins lucrativos.
Esse modelo é interessante, porque uma empresa privada buscaria lucro de 20% ou 30%, o que aumentaria o custo das refeições. A OSC, por não ter essa margem de lucro, permite que o preço para o aluno se mantenha mais acessível. É uma alternativa saudável tanto para a universidade quanto para os estudantes.
Já no caso da limpeza, não temos como aplicar o mesmo modelo. Lá, realmente precisamos de uma empresa terceirizada, porque não existe uma estrutura semelhante à OSC para esse tipo de serviço.
No contrato anterior, tivemos vários problemas — banheiros mal limpos, laboratórios descuidados. Provavelmente o contrato não tinha sido bem feito. Então, no fim do ano passado, revisamos tudo, repensamos o edital, enviamos para a assessoria jurídica e refizemos o processo.
Agora, a nova empresa de limpeza parece estar funcionando bem melhor. As reclamações diminuíram bastante.
Mas é uma questão complexa. Então, temos que escolher: queremos o campus limpo ou não? Se trocássemos o dinheiro gasto com a empresa terceirizada por contratações diretas, talvez não conseguíssemos manter tudo funcionando.
Essas decisões seguem orientações da reitoria. Eu, pessoalmente, não tenho autonomia para decidir entre OSC, terceirização ou contratação direta. O dinheiro vem de fora, e eu executo conforme as determinações. Então, sim, fico de mãos atadas em muitos aspectos.
O Campus de Bauru: Ainda falando sobre as condições de trabalho, há uma preocupação de que o sistema terceirizado e até mesmo a OSC estejam precarizando o trabalho dos funcionários. Essa é uma preocupação sua?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Muito. Por exemplo, no caso da OSC que administra o restaurante, há uma grande rotatividade de cozinheiras. Isso acontece porque elas recebem salários de piso, e às vezes acabam trocando de emprego por questões financeiras.
Se queremos manter profissionais mais experientes e satisfeitos, precisamos melhorar os contratos com essa OSC, garantindo que as trabalhadoras tenham conforto e estabilidade.
Enquanto não encontramos o equilíbrio ideal nesses contratos, esse tipo de desconforto acontece. E é minha responsabilidade, como gestor, olhar para isso e verificar se os salários e enquadramentos estão adequados.
Se não estiverem, devo levar o problema à reitoria e lutar por ajustes contratuais. Assim, conseguimos melhorar a estabilidade das equipes e o bem-estar dos trabalhadores.
Eu não quero que uma cozinheira saia daqui porque ganha pouco e vá limpar banheiros em outro lugar, ganhando mais. Quero que ela fique, que tenha condições dignas, e que os alunos sejam bem atendidos.
Mas isso é um processo gradual, degrau por degrau. A gente faz um pouco, avalia, estuda, melhora — e assim seguimos.
O Campus de Bauru: O restaurante universitário também vêm recebendo muitas críticas dos alunos nos últimos anos. Como essa gestão enxerga o RU?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Existe sim uma preocupação, quero trabalhar junto com a Coordenadoria de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (SANS) e com a professora Fernanda Henriques para viabilizar melhorias no restaurante.
Vamos fazer uma reforma no fim do ano: trocar parte do piso, ajustar a área de servir e aumentar o fluxo de entrada, com mais mesas. A ideia é ampliar a quantidade de refeições no almoço e no jantar, para que o campus tenha mais vida. A demanda é alta e 1.500 refeições diárias às vezes não são suficientes, mas, antes de aumentar o número, é fundamental aprimorar a estrutura física.
Já conversei informalmente com a professora Fernanda Henriques, e ela demonstrou abertura para aumentar as refeições, desde que façamos essas melhorias. Claro que há incertezas — não sabemos como estará o orçamento da universidade no próximo ano, mas quero deixar tudo pronto até fevereiro ou março, quando as aulas voltarem, para, então, pedir formalmente esse aumento.
O Campus de Bauru: Sobre a moradia estudantil… na última gestão estava prevista uma ampliação no número de vagas, mas ela foi adiada por conta de um problema com a fornecedora dos colchões. Como está essa situação agora? Há planos de aumentar o número de vagas durante a sua gestão?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Pois é, a questão dos colchões foi bem complicada. Nós pedimos um tipo de colchão, e veio outro completamente diferente — era praticamente um colchão de ginástica! Um absurdo.
O fornecedor discutiu com a gente, deu dor de cabeça com o setor de materiais, foi uma confusão. Mas, felizmente, isso já foi resolvido. Os colchões corretos chegaram, e agora estamos chamando os estudantes para ocupar as 31 vagas da Moradia 2.
A professora Tarsila [Profa. Dra. Tarcila Lima da Costa], que estava saindo, e o professor Gustavo [Prof. Dr. Gustavo Garcia Manzato], que está entrando, estão cuidando desse processo. Tive uma reunião com os dois, e eles já estão fazendo as convocações.
Como sempre, o processo de permanência funciona por ranking, elaborado a partir da avaliação das assistentes sociais. Esse ranking inclui veteranos e calouros, tanto da FAAC, quanto da FC e da FEB. Ele já estava pronto desde junho, mas não podíamos usá-lo porque os colchões não tinham chegado.
A lista foi entregue à responsável do GAC, que vai chamar os estudantes em blocos de cinco. Assim, podemos verificar o real interesse de cada um em se mudar para a moradia.
Agora, com tudo resolvido, vamos limpar novamente o prédio — ele já estava limpo, mas precisamos deixá-lo impecável antes da entrada dos alunos.
Antes de pensar em pedir a construção de outro prédio, precisamos entender a demanda atual. Se as vagas encherem rapidamente e houver muita gente ainda precisando, aí sim começamos uma nova batalha na reitoria para buscar recursos e planejar um novo bloco — aquele “trabalho de tijolinho”, passo a passo.
O Campus de Bauru: Como será a relação da nova gestão com o movimento estudantil? O senhor pretende criar novos canais de comunicação ou diálogo entre a administração e os alunos?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Acho que não há necessidade de criar novos canais. Eu sou uma pessoa acessível. Quem quiser falar comigo, pode me procurar. Se usarmos os canais que já existem, tudo flui bem.
Quero que tragam as demandas, quero saber o que está acontecendo. A partir daí, discutimos nos colegiados o que é viável ou não.
Prefiro saber das coisas do que ficar no escuro. A universidade é democrática, tem representação em todos os órgãos. Sempre peço aos diretórios que indiquem seus representantes nos colegiados, nas congregações.
O importante é que o aluno participe, mostre o que precisa ser feito. E, se quiser falar diretamente comigo, as portas estarão abertas.
O Campus de Bauru: Mudando um pouco de assunto, como o senhor enxerga o papel da gestão administrativa no apoio aos pilares da universidade pública — ensino, pesquisa e extensão?
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Eu sou um grande defensor da universidade pública, até porque venho dela. Fiz minha graduação em universidade pública, e sei o quanto é importante esse espaço de convivência, de troca, de aprendizado com pessoas de diferentes áreas.
Acho incrível esse ambiente, e quero contribuir para que ele funcione cada vez melhor.
Mas é importante entender que há uma parte técnica do trabalho que não dá pra ignorar: o lixo precisa ser recolhido, o banheiro precisa ser limpo, os equipamentos têm que funcionar.
Quando essas coisas básicas estão resolvidas, conseguimos focar no que realmente importa: ensino, pesquisa e extensão.
Meu objetivo é criar condições para que professores e alunos não precisem se preocupar com infraestrutura. Quero que entrem em sala de aula e encontrem o espaço pronto: sala adequada, cadeiras boas, computador funcionando, internet estável, quadro limpo.
Quando isso acontece, o ambiente fica mais leve e produtivo — e todo o resto flui naturalmente.
O Campus de Bauru: Agora, pra encerrar, gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para a comunidade acadêmica nesse início de gestão.
Prof. Dr. José Remo Ferreira Brega: Apesar dos meus cabelos brancos (risos), estou cheio de disposição. Nesse primeiro mês de gestão, quero trabalhar junto com a comunidade. Quero que vocês me procurem, que tragam ideias, que mostrem as demandas. Eu sou um executor das vontades da comunidade. O que a comunidade pedir, eu vou correr atrás. Não estou aqui para ser obstáculo, mas para facilitar. Então, tragam as propostas, discutam nos colegiados, aprovem nas congregações — e eu estarei aqui para colocar em prática. Sempre tentando fazer o melhor, com muito trabalho e dedicação.






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