Conheça o Vozes do Nicéia

O projeto atua na cobertura jornalística do bairro Jardim Nicéia, localizado próximo da Unesp
Por Fernanda Sampaio e João Provasi

O Projeto de extensão “Vozes do Nicéia” é um jornal comunitário que atua como ferramenta de comunicação e mediação entre a comunidade do bairro Jardim Nicéia, os órgãos públicos e o restante da cidade. Ativo desde 2008, e com supervisão da Profa. Dra. Aline Camargo, os membros do projeto vão até o bairro todo sábado, que fica próximo ao campus da Unesp de Bauru, para conversar com os moradores sobre pautas, problemas e histórias. 

Atualmente, o jornal conta com seis áreas de atuação, sendo elas audiovisual, rádio, redação, o impresso, mídias sociais e diagramação. Além dessas divisões, existem responsabilidades resguardadas aos coordenadores, como financeiro e gestão de pessoas. O projeto possui cerca de 60 membros e abre inscrições todos os anos para recrutar estudantes interessados. 

Por ser um projeto social e que envolve a comunidade que vive próxima da Unesp, no dia 25 de outubro, sábado, o Campus de Bauru acompanhou o Vozes do Nicéia durante uma visita ao bairro. No dia em questão, o objetivo era conversar com os moradores a respeito do acesso que eles têm a atividades de lazer e cultura.

Durante as ações do Vozes do Nicéia, o integrantes andam pelo bairro procurando fontes para as pautas e perguntando aos moradores sobre as novidades da semana (Foto: Ana Luiza Oliveira)

A preparação para as ações no bairro são planejadas em reuniões semanais. Nas segundas-feiras, é dia da reunião de coordenação, quando as pautas e outras questões do projeto são avaliadas. Nas quintas-feiras, ocorrem as reuniões gerais, que podem ser dedicadas à discussão das pautas ou as necessidades de algum núcleo.   

A Giovana Keiko, estudante do quarto ano de jornalismo e atual coordenadora do projeto e coordenadora de rádio, comenta que as pessoas do bairro também colaboram com a elaboração das pautas, muitas vezes enviando mensagem via Whatsapp. “Quando tem algum problema, como escorpião, eles mandam foto e a gente tenta falar com a prefeitura. Eles avisam quando vai ter algum evento. E quando a gente vai no bairro, o pessoal vem falar com a gente. Então a gente sempre está acompanhando.”

Toda essa parte fica finalizada até o sábado, dia em que os integrantes do projeto vão até o Nicéia para produzir as matérias. Quando as notícias são mais corriqueiras, elas são distribuídas em uma produção sonora, geralmente a cada 15 dias. Já o conteúdo audiovisual é sempre produzido com antecedência e publicado mensalmente. 

Entretanto, o grande diferencial do Vozes do Nicéia é o jornal impresso, em circulação desde quando o projeto começou, em 2008. As tiragens são produzidas, geralmente, de uma a duas vezes por semestre, e são distribuídas gratuitamente entre a população do bairro. As páginas contém desde informes breves, até reportagens longas e temáticas, que se aprofundam no dia a dia dos moradores.

A cobertura impressa é imprescindível para as atividades sociais. Giovana conta que os moradores ficam na expectativa das novas edições e que sempre estão dispostos a colaborar. “Não tem como fazer jornalismo comunitário sem o impresso. Os moderadores se sentem vistos, é bem interessante. Principalmente as crianças, elas adoram aparecer no jornal, e por isso a edição 51 foi dedicada a elas”. 

O jornalismo do projeto também é engajado com a política da cidade, atuando como uma ponte entre as necessidades do bairro do Nicéia e os representantes municipais. “A maioria das ruas eram de terra até 2023. Só em volta da quadra é que tinha asfalto. Era péssimo”, relembra Nathan Nunes, coordenador de audiovisual.

Outro problema era a falta de sinalização nas ruas, o que colocava as pessoas em risco, principalmente as crianças. “Depois que asfaltaram, tinha muita reclamação de que os carros estavam passando muito rápido, e tem muita criança e idoso andando na rua”, relata Giovana.

(Foto: Ana Luiza Oliveira)

“Então a gente preparou uma matéria. Tiramos um monte de foto e na quinta-feira fomos perguntar para prefeitura porque eles não estavam fazendo o que deveriam. No sábado, quando a gente voltou ao bairro, estava tudo pintado, sinalizado com placas. Nós realmente fizemos a diferença”, conta a estudante. 

Além da cobertura jornalística, o projeto organiza ações recreativas em datas especiais, como o Dia das Crianças, levando para a comunidade atividades esportivas e culturais. Outra iniciativa são as matérias dedicadas aos empreendedores do bairro, que atuam como cabeleireiros ou comerciantes, e que acabam tendo a oportunidade de compartilhar suas histórias. 

O jornal não pretende se colocar como um “representante” da população que vive no bairro, mas sim ser um veículo que leve suas ideias para além do Nicéia. Por esse motivo, em 2023, o nome do projeto passou por uma reformulação, passando de “Voz” para “Vozes” do Nicéia, procurando evidenciar a pluralidade e a diversidade do jornalismo comunitário.

(Foto: Ana Luiza Oliveira)

“Por mais que seja uma mudança pequena, a gente não fala pelos moradores, sabe? A gente fala com eles. Como jornalismo comunitário, percebemos que não importa o que a gente quer dizer, mas sim o que eles querem falar. Eles conseguem se resolver sozinhos, e o que importa no final é o bem estar geral”, destaca Keiko.

Durante o percurso no dia 25, alguns moradores se interessaram pela matéria e compartilharam suas perspectivas sobre o projeto. Ricardo, funcionário público do DAE e morador do bairro há 13 anos, evidencia a importância do jornal nas reivindicações. “Eu já recebi bastante o jornal em casa, e ele é ótimo, porque sempre se dispõe a ajudar nos problemas que enfrentamos por aqui”.

Alguns integrantes do projeto também conversaram com O Campus de Bauru. Maria Luiza Hardt, aluna do primeiro ano de jornalismo, conta que o Vozes do Nicéia chamou sua atenção pela proposta social. “Eu quis vir para o Vozes porque é uma oportunidade de estar em contato com as pessoas, de conversar e entender o que elas têm para falar, fazer o jornalismo na prática”. 

Segundo Maria, o projeto também colabora no seu desenvolvimento como jornalista, já que possibilita a atuação em diversas áreas. “O Vozes é um dos projetos que mais tem o jornalismo mesmo, sabe? Tem a redação, o rádio, o audiovisual, então, acho que unindo tudo isso foi algo que fez muito sentido para mim e que eu tinha muita vontade de entrar”, complementa.

O coordenador de audiovisual, Nathan Nunes, reforça ainda dizendo que as atividades promovidas pelo Vozes são importantes para o crescimento pessoal e profissional dos novos jornalistas, pois requer contato direto com a população. “A gente precisa estar aqui, ou a cada sábado, ou então a cada dois sábados. A gente tem que estar conversando com o pessoal”.

“Quando a gente vê a diferença que fazemos na vida deles, com um jornalismo cara a cara, ouvindo problemas reais, é gratificante. Em momentos como no Dia das Crianças, a gente estava distribuindo refrigerante para todos os moradores. Vinham as crianças, é claro, mas vinham muitos moradores idosos, ou pessoas de 30, 40, anos, e eles consumiram, gostaram do que a gente fez. São nesses momentos que a gente vê que o trabalho vale a pena”, finaliza.

Equipe do Vozes do Nicéia e do O Campus de Bauru durante as atividades no bairro
(Foto: Ana Luiza Oliveira)

Acompanhe o Vozes do Nicéia pelo Instagram: @vozesdoniceia

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