Após insatisfação com as metodologias acolhidas pelos professores, alunos decidem seus próprios critérios para resolver a questão
Por Gustavo Vieira
Desde 2023 os alunos de Psicologia vêm se movendo internamente para definirem de forma autônoma o preenchimento das vagas de estágio oferecidas pelos professores para o último ano da graduação. Encabeçada pelas turmas que ingressaram em 2020 e 2021, a ação surgiu após reclamações dos estudantes sobre a falta de critérios, padrões, e diretrizes utilizadas nos processos seletivos, tornando a etapa confusa e pouco transparente.
Em carta direcionada ao corpo docente da época, os alunos pontuaram os problemas enfrentados e destacaram sua insatisfação, já acumulada a anos por turmas anteriores. Ainda em 2023, após debates e reuniões com o Conselho de Curso, a proposta de uma organização feita pelos próprios estudantes foi aprovada.
Para a primeira experiência prática do movimento, em 2024, a Comissão de Estágios foi formada com objetivo de dirigir a ação e servir como ponte de diálogo entre alunos e professores.
Em assembléia, os estudantes votaram em métodos e critérios para o complemento das vagas, visando os alunos do então quarto ano e aqueles que jubilaram, e dentre esses, os mais prejudicados pela metodologia anterior.
Hoje, as turmas de estagiários de Psicologia da Unesp Bauru são resultantes desse processo. Este ano, os estudantes se juntam mais uma vez para organizar, por conta própria, os estágios de 2026.
Os estágios
Durante a graduação em Psicologia, o quinto ano é dedicado exclusivamente para a realização dos estágios obrigatórios. Cada aluno deve, necessariamente, fazer três estágios para se formar. Os discentes que decidirem não realizar os três em um ano podem estender a conclusão do bacharelado em até oito anos.
Dentro do curso existem quatro ênfases, abordagens de conhecimento teórico-prático que direcionam a atuação do profissional psicólogo, que são: Psicologia Clínica, Psicologia e Educação, Psicologia e Trabalho e Psicologia Social. Cada estudante deve estagiar em três ênfases diferentes.
As ofertas das vagas acontecem internamente, ou seja, os docentes abrem turmas de estagiários para atuarem nas abordagens de sua especialização, que podem ser realizadas dentro ou fora da universidade.
Na modalidade de Psicologia e Trabalho, as vagas podem ser ofertadas nas Seções Técnicas de cada faculdade da Unesp, por exemplo. Professores de Psicologia Clínica oferecem vagas no Centro de Psicologia Aplicada (CPA), também dentro do campus. Já os de Psicologia e Educação podem aplicá-las em escolas municipais ou estaduais, enquanto os de Psicologia Social as ofertam em órgãos como CRAS ou CAPS.
Antes da auto-organização, era responsabilidade de cada docente que oferecesse vagas realizar um processo seletivo e aprovar os candidatos. Laura Camolesi, 22, integrante da Comissão deste ano, conta que não havia critérios claros nesses processos e faltava diretrizes para guiar o método. “Não existia uma padronização de, por exemplo, ter entrevistas independente da ênfase. Cada professor escolhia seu jeito. Uns eram mais rigorosos, colocavam várias etapas cansativas, outros mais ‘largados’, de só ter uma conversa.”, diz
A estudante também relata outro problema presente: a maior parte dos professores colocavam suas supervisões de estágio nos períodos da manhã ou da tarde, tornando inviável a participação de muitos discentes do noturno, que trabalhavam nestes horários.
Juntamente a essas questões, a falta de avaliação prévia da demanda por estágios, fazendo com que determinadas ênfases tivessem poucas vagas por turma ou falta de professores que as ofertassem, se tornou um dos principais pontos para a mobilização da nova forma de se organizar e característica marcante da primeira experiência.
O primeiro passo
Dionatan Salviano, 25, egresso da turma 020 e membro da Comissão de Estágios em 2024, explica que houve um alto número de procura por vagas, exclusividade daquele ano, pois muitos alunos da sua turma estenderam o curso em decorrência da pandemia do COVID-19, que fez a Unesp adotar o ensino à distância de 2020 até o segundo semestre de 2022. Dessa forma, estudantes ingressados em 2021, à altura no quarto ano, buscavam por estágios com seus veteranos diretos.
“Vários estudantes precisaram trancar matérias para trabalhar durante a pandemia. [No EAD] muitos tiveram que ajudar suas famílias em casa. No presencial, os alunos do noturno que trabalhavam na escala 6×1 tiveram que trancar as matérias de sábado porque elas aconteciam de manhã; Para 2025 tinha um volume muito grande de futuros estagiários”, conta o psicólogo.
Nesse cenário, não existiam vagas de estágio que acolhesse todos os discentes. A Comissão formada desempenhou o papel de mapear e levantar os dados que representassem a realidade do curso naquele momento para, mais tarde, apresentar aos professores em reuniões. “Foram encontros de muita bateção de cabeça. Alguns [docentes] tiveram que abrir duas turmas com oito vagas cada; outros tiveram que aumentar o número de vagas da turma de oito para 12; houve também aqueles que abriram mão de disciplina para só supervisionarem estágio.”, relembra Salviano.
Após o acerto da demanda, a Comissão promoveu reuniões com os alunos para decidirem coletivamente quais seriam os critérios utilizados para o preenchimento das vagas. Depois de debates, a conclusão formada era de que os parâmetros a serem adotados deveriam ter caráter socioeconômico, visto que os estudantes que precisavam trabalhar ou que dependiam da permanência eram os mais invisibilizados. Também foram destacadas questões de gênero e raça, com alunos trans e pretos, pardos e indígenas (PPI) sendo priorizados.
Com a definição dos critérios, os discentes se aplicaram para as turmas de interesse. Aqueles favorecidos pelo novo processo tiveram seu espaço nos estágios assegurados. Os demais, caso existisse um contingente maior que o número de vagas oferecidas, argumentavam entre si para decidir quem seriam os admitidos. Esses debates eram divididos por ênfase e subdivididos por turmas, acompanhados por mediadores.
Dionatan revela que, perante o novo formato e inexperiência da maior parte dos alunos, a assembléia da auto-organização foi lenta, com alguns entraves, mas o resultado foi satisfatório.
A autogestão de 2025
Carregando o conhecimento adquirido no ano anterior, a Comissão de 2025 busca dinamizar o processo, de modo com que impasses sejam enxugados e que mais alunos sejam beneficiados.
A divisão dos debates em ênfases e subdivisão em turmas seguem mantidos. Os critérios socioeconômicos e de gênero e raça também, com o primeiro dando admissão automática às vagas e o segundo colocando em posição de prioridade. Para afunilar os debates e agilizar a organização, outros parâmetros serão utilizados, como afinidade teórica com a vaga, atividades extracurriculares relacionadas ao estágio e questões pessoais que possam impactar no trabalho.
Com exceção das duas primeiras convenções, as demais serão aplicadas em discussões extra-sala, que também aconteceram no ano anterior. Isso porque, em assembléia, é esperado que os discentes aplicados na mesma turma entrem em consenso quanto aos quais serão os admitidos. Em caso de discordância, os candidatos deverão discutir fora da reunião com a presença de três mediadores que auxiliarão na decisão com base nos critérios acordados. Se o desentendimento persistir, a vaga poderá ser decidida por sorteio.
Os alunos poderão se candidatar nas quatro ênfases e em mais de uma turma por ênfase, classificando elas ordinalmente. Aquele que abrir mão da sua primeira opção passará para a segunda com a prioridade de como esta fosse sua primeira. O objetivo da Comissão é que todos os estudantes consigam estagiar em pelo menos uma turma de maior interesse.
No próximo ano, 206 vagas serão necessárias para contemplar 88 estudantes, discentes da 019 até a 022, aptos a estagiar. Em reunião com os professores, a Comissão foi informada da possibilidade da oferta de 22 turmas de estágio, considerando três contratações de docentes ainda em andamento – dois de ênfase Social e um de Clínica – que terão essa responsabilidade assim que admitidos.
Cada turma terá a disponibilidade de 10 vagas, superando o número mínimo esperado. Das 22 turmas, nove serão no período noturno. A assembléia de autogestão acontecerá em 15 de novembro.
Recepção dos docentes
O Prof. Dr. Mário Camargo, coordenador do curso de Psicologia, em entrevista ao jornal O Campus de Bauru, classificou a iniciativa dos estudantes como um sucesso e que o corpo docente a recepcionou com bons olhos. O professor acredita que essa forma de organizar os estágios deve ser mantida como padrão para os anos seguintes.
“Esse protagonismo dos estudantes, ao meu ver, é garantia de que a gente vai ter, nos próximos anos, um processo mais democrático, mais participativo. Na nossa avaliação [dos professores] a auto-organização deu muito certo.”, comenta.





Deixe um comentário