Deputado estadual Guilherme Cortez dialoga com estudantes em visita à Unesp Bauru

Parlamentar do PSOL participou de roda de conversa promovida pelo movimento estudantil e debateu pautas ligadas à juventude, educação e participação política
Por Guilherme Barbeito e João Provasi

Na última terça-feira (17), o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL) visitou o campus da Unesp em Bauru para participar de um evento promovido pelo Movimento Afronte!. A atividade integra o circuito “Nossa Chance”, iniciativa que percorre universidades paulistas com o objetivo de estabelecer diálogo direto com estudantes e jovens eleitores.

Durante a passagem pelo campus, o parlamentar destacou a importância das universidades públicas como espaços de formação política e debate democrático. A agenda buscou aproximar o mandato das demandas estudantis, abordando temas como permanência universitária, participação da juventude na política institucional e os desafios enfrentados por estudantes no ensino superior público.

Quem é Guilherme Cortez?

Nascido em São Paulo, o deputado de 28 anos se formou em direito pela Unesp Franca. Em 2022, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) conquistando 45 mil votos e se tornando um dos legisladores mais jovens da história da casa.

Bissexual, militante dos direitos da comunidade LGBTQIA +, da pauta ambiental e também da educação pública, Guilherme se consolidou como uma das principais vozes na geração Z no campo da esquerda, sendo uma das figuras mais influentes desse grupo nas redes sociais.

O evento no campus de Bauru

A visita de Cortez a Bauru faz parte da caravana ‘Nossa Chance’, na qual o parlamentar visitou diversos campi universitários pelo estado de São Paulo, especialmente aqueles das faculdades públicas como Unesp, USP, Unicamp e UFSCAR.

A convite do coletivo Afronte!, em parceria com a bancada feminista do PSOL, a atividade reuniu centenas de estudantes na Cantina da FEB em uma roda de conversa no formato 20×1. Os universitários inscreviam perguntas previamente, que eram selecionadas pela organização; os autores então tinham a oportunidade de questionar diretamente o deputado e dialogar com ele diante do público.

Confira a seguir um resumo das principais pautas abordadas nos debates.

Redes sociais, educação e a extrema-direita

Um dos pontos mais abordados ao longo do debate foi a ascensão da extrema-direita entre os jovens. Em enfrentamento a esse fenômeno, Guilherme Cortez defende que a educação e a formação crítica possuem papéis centrais no combate a esse avanço. Segundo ele, esses dois aspectos ajudam a compreender melhor os conflitos sociais e políticos da atualidade. “A educação ajuda a gente a formar a nossa consciência”, disse o deputado.

O parlamentar também relacionou o fenômeno à importância das redes sociais entre as novas gerações. Para Cortez, o ambiente digital ampliou o acesso à informação, mas também intensificou a circulação de conteúdos nocivos . Ele afirmou que há grupos que se aproveitam dessa geração para disseminar narrativas preconceituosas.

“Hoje, a rede social é dominada pelas figuras da extrema-direita. Eles se apropriaram do podcast, do YouTube, do TikTok e é através dessas redes que eles fazem chegar para essa geração, discursos de ódio, mentirosos, tendenciosos e preconceituosos”, afirmou.

O deputado defendeu a regulamentação das plataformas digitais e destacou a importância da educação midiática. “As pessoas precisam saber reconhecer conteúdos mentirosos e conteúdos verídicos”, acrescentando que estudantes da área da comunicação têm papel estratégico nesse processo.

Cenário político brasileiro, juventude e o futuro da esquerda

Ao analisar o cenário político nacional, Cortez avaliou que o campo progressista atravessa um momento de transição. Segundo ele, o ciclo político associado ao lulismo ainda exerce papel relevante na disputa eleitoral, mas enfrenta limites e resistências na sociedade brasileira.

Na avaliação do parlamentar, a classe trabalhadora atual é muito diferente daquela sindicalista e operária formada nos anos 80, apresentando novos meios de organização e demandas distintas, como o fim da escala 6×1. “Essa luta começou no TikTok, viralizou nas redes e hoje tem apoio de 71% da população brasileira”, afirmou. Para ele, o episódio evidencia como as plataformas digitais passaram a influenciar diretamente a formação da opinião pública e a pressão por mudanças trabalhistas.

Cortez também destacou o papel da juventude na disputa de projetos políticos. “Tem muita gente disputando a geração de vocês por caminhos diferentes”, afirmou. Para ele, o engajamento dos jovens será decisivo para definir os rumos democráticos e sociais do país nas próximas décadas.

No formato 20×1, Guilherme Cortez dialogou diretamente com os jovens (Foto: João Pedro Coelho)

Movimento estudantil, financiamento e o prognóstico das universidades públicas

Formado pela Unesp, Guilherme Cortez é um dos defensores das universidades estaduais paulistas dentro da ALESP. No entanto, afirmou que possui apreensões quanto ao futuro das intuições nos próximos anos. Para ele, o modelo de financiamento está ultrapassado e defasado.

Desde 1989, USP, Unesp e Unicamp dividem entre si uma quota-parte de 9,57% da arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) do estado. Presente em 24 cidades do estado, a Unesp aprovou para 2026 um orçamento que já prevê um déficit de R$189 milhões (despesas no valor global de R$4,98 bilhões e receitas de R$4,79 bilhões). 

Além disso, foi aprovada em 2019, uma reforma tributária que acabará com o ICMS até 2032, forçando que as universidades e a ALESP pensem em novas formas de financiamento. 

No entanto, Cortez alerta que o ensino superior público e gratuito sofre cada vez mais resistência em partes do corpo legislativo do Estado. “Quem acha que a universidade não deveria existir primeiro vota para não ter dinheiro suficiente e depois defende privatização”, explicou.

Segundo o deputado, o momento exige participação ativa da comunidade acadêmica para evitar retrocessos. Guilherme Cortez ainda ressaltou a importância histórica do movimento estudantil nessas lutas. “Eu respeito muito o movimento estudantil. Passei anos na UNESP com ameaça de corte de curso, corte de fechamento de campus. […] Em 2013, o movimento se organizou para ocupar a reitoria e defender a política de cotas. Há alguns anos, a Unesp em Bauru se mobilizou e demitiu um professor assediador, ano passado, vocês conseguiram refundar o DCE”, relembrou o parlamentar.

Saiba mais

Cotas trans

Uma das tendências de debate nas universidades públicas nos últimos anos é a criação de cotas para pessoas trans. Carolina Iara, mulher trans doutoranda pela USP e participante da bancada feminista do PSOL, defendeu a criação dessa modalidade de cotas e o combate ao preconceito. “Da mesma forma que nós tivemos, e ainda temos, que enfrentar o racismo em relação às pessoas que entram pela cota étnico-racial e indígenas, nós também vamos ter que combater a transfobia. Temos que ter uma luta coerente e unificada contra toda essa forma de discriminação. Nós não podemos compactuar com a desumanização de pessoas trans. Nós não temos privilégios”, comentou a co-deputada durante o evento.

Em 2025, a Unicamp se tornou a primeira universidade de São Paulo a criar cotas para pessoas trans. Desde então, participantes do movimento estudantil têm se mobilizado para pedir que essa medida seja replicada na Unesp. A reitora Maysa Furlan já afirmou ter a intenção de implementar as cotas trans no vestibular.

Segurança Pública

Ao comentar a política de segurança pública em São Paulo, o deputado Guilherme Cortez fez críticas diretas à gestão do governador Tarcísio de Freitas e do secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite. Segundo ele, o modelo adotado pelo governo estadual prioriza ações repressivas e resultados midiáticos, sem produzir melhora concreta na segurança da população. “Hoje ninguém se sente mais seguro em São Paulo”, opinou.

O parlamentar avaliou que a política atual estaria orientada por uma lógica eleitoral e baseada no aumento da letalidade policial, sem enfrentar as causas estruturais da violência. “Não é uma política voltada para proteger as pessoas, mas para fazer populismo midiático”, disse. Cortez também afirmou que esse modelo impacta os próprios agentes de segurança, ao elevar casos de adoecimento mental e mortes em operações.

Para o deputado, mudanças mais profundas dependem da correlação de forças políticas na Assembleia Legislativa e da adoção de políticas públicas que combinem segurança com redução das desigualdades sociais.

Meio ambiente e crise climática

Perguntado sobre o tema, Cortez afirmou que o aquecimento global exige mudanças estruturais na organização das cidades e das políticas públicas. “A mudança climática nos obriga a repensar a sociedade inteira”, declarou.

Ele ressaltou que os impactos ambientais atingem de forma desigual diferentes grupos sociais, afetando principalmente populações mais vulneráveis. Nesse contexto, defendeu a adoção de políticas de justiça climática que combinem sustentabilidade ambiental e inclusão social.

Para o deputado, enfrentar a crise climática implica revisar modelos de desenvolvimento e planejamento urbano. Cortez afirmou que transporte, habitação e infraestrutura precisam ser reorganizados para reduzir impactos ambientais e proteger populações mais expostas às mudanças do clima.

Encerramento

Em sua fala final, Guilherme Cortez ressaltou a importância da juventude nas lutas políticas do presente e do futuro. Segundo ele, há uma disputa em curso pelo imaginário das novas gerações, que pode levar tanto ao aprofundamento de crises sociais quanto à construção de novos projetos coletivos.

Segundo ele, o ambiente universitário é estratégico para que novas gerações desenvolvam consciência social e participem ativamente da construção de projetos coletivos. “Eu estou passando pelas universidades para que a gente não perca a capacidade de imaginar o futuro como a gente quer, com a nossa cara”.

Ao final, o deputado afirmou que a universidade deve permanecer como espaço de debate público, produção de conhecimento e esperança coletiva diante das crises contemporâneas. Em tom de esperança, Cortez convidou os estudantes a se organizarem politicamente e a participarem da construção de alternativas sociais e democráticas para o futuro. “Nós ainda temos uma chance. Essa é a nossa chance”, concluiu.

Para saber mais sobre a caravana de Guilherme Cortez, que ainda passará por pelo menos mais nove cidades, acesse o Instagram do deputado (@guilhermecortez_) e acompanhe as datas.

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