Por Marcos Esteves
Durante muito tempo, ter o filho em uma universidade pública era visto como motivo de orgulho e prestígio por grande parte da sociedade, considerando os diversos obstáculos e percalços enfrentados até o nome na lista de aprovados. Entretanto, vale ressaltar o caráter elitista e restrito desde o início do século XX, presente na origem do ensino público superior no Brasil. Por muito tempo este espaço foi reservado à aristocracia política, econômica e intelectual, constituindo um sistema que participa ativamente na manutenção de desigualdades.
Nos últimos anos, cresceu abruptamente um sentimento de ódio e perseguição ao ensino público, principalmente por parte de governos e figuras de extrema-direita, escancarando o atual cenário de polarização política e descaso governamental dentro do âmbito educacional.
Este ódio por parte de uma parcela considerável da sociedade, majoritariamente conservadora, decorre de questões que se relacionam ao acesso dentro das universidades, que apesar de terem avançado substancialmente com a inserção de cotas, deixou um “ressentimento” a uma parte do corpo social.
A ironia é que este processo de desigualdade decorre justamente de diversos governos anteriores de direita. Políticos conservadores se utilizam dessas emoções que eles mesmos produziram, para afastar a massa nacional (renegados) destes espaços, aproveitando da propagação de pânico moral, divulgado por recortes isolados tirados de contexto dentro das mídias sociais.
Vale salientar que há toda uma dimensão racial dentro dessa busca por espaços, sendo mais importante do que a dimensão de classes. O fim do processo escravagista no Brasil se encerrou há menos de 150 anos, a exclusão é sistemática por séculos. O Estado atua por meio de parâmetros raciais, e não somente sociais, fortalecendo toda a disparidade de acesso.
Essa construção narrativa caricata que reduz os campi a um espaço de festas, drogas e sexo serve apenas a um propósito: desumanizar o estudante. Em sua composição, a universidade pública é um espaço de pluralidade, diversidade, vivências, de debate livre e descobertas. Não obstante, ao transmitir para o povo que o ambiente universitário é um entorno de anarquia, a aversão penetra profundamente no imaginário popular. Por isso, quando estudantes se mobilizam, existe uma grande adesão e até aplausos por investidas policiais no controle e contenção, reprimindo jovens que lutam pelo seu futuro e pelo futuro do próprio país.
Para demonstrar como a estratégia do pânico e caos como instrumento de doutrinação não se justifica, vemos diversos fatos que dizem o contrário. De acordo com a Clarivate Analytics, as universidades públicas são responsáveis por mais de 95% de toda produção científica nacional, escancarando a importância de toda uma cadeia de elaboração, extremamente essencial no desenvolvimento de setores estratégicos para o Estado.
O setor privado pouco investe em pesquisa de base. Devido a isso, um recorte de investimento nestas áreas afeta não só os estudantes e a universidade, mas todo o desenvolvimento científico do país, condenando o Brasil a uma histórica posição de fazenda do mundo, exportador de commodities e comprador de tecnologia de ponta dos países ditos desenvolvidos.
O desmonte educacional motivado pelo ódio ideológico desfavorece economicamente e socialmente o Brasil, quando as bolsas oferecidas não garantem o mínimo para a sobrevivência dos estudantes e pesquisadores. São dois possíveis caminhos desastrosos: uma alta taxa de evasão dentro dos cursos e a fuga de cérebros. Quando grandes mentes decidem deixar o país e ir em busca de melhores oportunidades em outras nações, o Estado está se autossabotando, indo contra o pensamento patriótico de alguns e enfraquecendo a soberania nacional sistemicamente.
Este cenário de asfixia é cada vez mais potencializado por um governo como o do atual governador do estado. Tarcísio já adotou diversas medidas que vão diretamente contra o avanço educacional. Portanto, é importante pontuar que os resultados acadêmicos e o prestígio internacional das Universidades Públicas não são graças ao estado, e sim, apesar do estado. A PEC 9/2023, de autoria do atual governador, propôs diminuir de 30% (vigente desde 1989) para 25% o orçamento de recursos estaduais para a educação paulista, resultando em uma redução orçamentária em 10 bilhões de reais anuais, impactando toda a manutenção e desenvolvimento do ensino público.
Outra ação do republicano foi a implementação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), mecanismo que permite reduzir em até 30% o repasse constitucional para a FAPESP, indo de 1% para 0,7% da receita orçamentária, representando uma ameaça de um decréscimo em 600 milhões de reais nos investimentos em bolsas de pesquisa.
Devido a todos estes fatores, o atual estágio de greve dentro das três grandes paulistas: USP, Unicamp e Unesp não é “baderna” ou folga, e sim um pedido de socorro. Sem infraestrutura digna, inclusão e condições de permanência, o Palácio dos Bandeirantes assume uma visão da educação como um gasto a ser cortado, não um investimento.
Um movimento grevista tornou-se o último ato de resistência contra um governo omisso e covarde, na luta contra a transformação dos grandes palcos de desenvolvimento intelectual e científico em um espaço precário ocupado por privatistas.





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