Por Alex Iarossi
Nenhum carro passava pela avenida. A quantidade de pessoas nela fez com que tivesse de ser interditada. Algumas sentavam no chão, outras apoiavam-se na sarjeta e havia quem permanecia em pé. Independentemente de sua localização, todos estavam ali com o mesmo objetivo. Naquela noite, a Avenida Luís Edmundo Carrijo Coube era o palco das reivindicações.

Ao lado, a polícia fazia-se presente. Ao lado de quem?
Uma linha de frente foi formada. Eles seguravam armas do tamanho do seu medo. O fuzil só não era maior que a força de vontade dos que ali permaneciam. A luz da sirene vermelha refletia nos rostos, nos cartazes e na grade. De um lado gritavam, do outro encaravam.

Um rapaz carregava a caixa de som nos ombros, com a mesma força e intensidade que falava. Entregava o microfone, passava a palavra e todos atentos ouviam quem estivesse comunicando o desejo da sua comunidade. As pessoas aplaudiam.

No chão, na esperança de que o governador olhasse para baixo, colaram uma carta de onze páginas com o que a população de Bauru demandava. Universitários tinham espaço na carta, pedindo aumento de seu orçamento. A periferia tinha espaço na carta, pedindo menos morte de civis. Educadores tinham espaço na carta, pedindo salários justos e condições adequadas de trabalho. Todos tinham espaço na carta, só não tinham espaço na agenda do destinatário.

Próximo ao palanque onde o político falaria, um evento acontecia na Polícia Científica. Ternos, vestidos, câmeras, tudo estava preparado para a ilustre chegada. As pessoas sorriam, eram felizes ali dentro. Por isso, decidiram velar a felicidade fechando a porta, mesmo que dificilmente sairiam da sala com ela aberta.

A notícia de que o governador não apareceria chegou rápido aos manifestantes. A ideia de tê-lo ali fisicamente era boa, mas a ideia de ter feito ele cancelar o evento, era melhor ainda. De frente ao palanque, as pessoas migraram e, com alguns passos, foram para a frente da delegacia, onde eram servidos apertos de mãos, sorrisos, simpatias. Grudaram no vidro. O cartaz levantado batia de frente com a alegria que logo foi se desfazendo.

O que os separavam era apenas uma vidraça. Os que estavam lá dentro tentavam ignorar os gritos e o coro de pessoas, mas bastava olhar para suas veias saltantes que era possível identificar que precisavam falar mais alto que o normal para se ouvirem entre si. Ainda conversaram, mas a conversa não durou tanto tempo.
Entretanto, durante um dos diálogos, graças a uma leitura labial elaborada e uma expressividade nada discreta do falante, foi possível identificar apenas uma frase.
— Desculpe pelo incômodo — disse um dos que vestia um terno e gravata enquanto acenava para fora com a cabeça.
Eles tentavam ouvir uns aos outros enquanto os de fora imploravam para serem ouvidos.
— Recua, facista, recua!
— Tira a tesoura da mão, investe na educação!
— Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil!
Até que, aos poucos, as pessoas começaram a esvaziar a sala. E quando a última saiu, as luzes se apagaram. Com a luz apagada, apagou-se junto a esperança. Apagou-se junto a expectativa. Mas a luz apagada acendeu ainda mais a força de vontade e o desejo de ser ouvido. Por isso, antes de irem embora, todos formaram uma roda. Uma grande roda. Mais pessoas foram tomar posse de sua voz no microfone. Todos agradecidos. Sabiam que era uma luta que estava mais próxima do início que do fim. E estavam dispostos a lutar mais para que tivessem o direito de chegar aos ouvidos do governador.

Assim terminou a noite do dia 20 de maio de 2026.
Fotos: Alex Iarossi




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