Por O Campus de Bauru

A universidade pública brasileira forma profissionais, produz ciência e transforma milhões de vidas. Por isso, o que cada candidato pretende fazer com ela merece mais atenção do que costuma receber numa campanha. Quem ainda não decidiu o voto tem um bom critério à mão: olhar o que está em jogo para o ensino superior público.

Em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro promete um “tesouraço”, isto é, um corte de gastos da gestão pública. A proposta, por si só, não é ilegítima: controlar despesas é um debate válido e democrático. O problema é que o candidato não diz quais áreas seriam atingidas. Para instituições que dependem de financiamento público para manter ensino, pesquisa e extensão, essa indefinição não é detalhe.

A campanha cita o argentino Javier Milei como inspiração para o “tesouraço”. Na Argentina, os cortes alcançaram as universidades: as verbas federais caíram 40,5% no primeiro semestre de 2026 em relação a 2023, e docentes e funcionários acumularam perdas salariais de 30% a 33%. Isso não prova que o Brasil seguiria o mesmo caminho, e o plano de Flávio não afirma isso. Mas o precedente mostra o que pode acontecer quando o corte vem antes da definição de prioridades e é razoável que o eleitor esteja esclarecido antes de votar.

Outra proposta é transferir as universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com o objetivo de priorizar o impacto produtivo das pesquisas. A ideia de aproximar ciência e desenvolvimento econômico tem mérito. Falta, porém, explicar como a transição seria feita e o que mudaria no orçamento. Falta também dizer como ficariam as áreas da humanidades, artes e ciências sociais, que ajudam a compreender a sociedade, preservar a memória e fortalecer a democracia, e cujo valor não se mede apenas pelo retorno imediato ao mercado.

Há ainda o histórico da família. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), o orçamento discricionário das federais sofreu bloqueios e cortes sucessivos, que levaram à maior crise orçamentária do setor em décadas

Vale ressaltar que os ataques às universidades públicas não se restringem à figura de Flávio Bolsonaro, mas também aparecem nas ações de integrantes de seu grupo político. Nos últimos anos, episódios de confrontos e tumultos em campi universitários protagonizados por aliados do bolsonarismo ganharam repercussão nas redes sociais, como o ocorrido na Universidade de São Paulo (USP), em março deste ano, envolvendo o vereador Lucas Pavanato (PL).

Parte desse discurso político retrata as universidades como espaços de doutrinação ideológica e aparelhamento da esquerda, desconsiderando a complexidade de suas atividades. É preciso lembrar que as universidades públicas são fundamentais para a pesquisa científica, a formação profissional e a produção de conhecimento no Brasil. Reduzi-las a espaços de “lavagem cerebral” é ignorar sua contribuição para o desenvolvimento social, científico e cultural do país.

A comparação fica ainda mais fácil quando vemos o outro lado. Os governos de Lula e Dilma ampliaram o acesso ao ensino superior: desde 2003, o número de matriculados passou de 3,9 milhões para 6,4 milhões, um aumento de 64%, graças a políticas como o ProUni (2004), o Sisu (2010) e a Lei de Cotas (2012).

Além disso, os governos petistas criaram 21 novas universidades federais e e mais de 190 campi no âmbito da expansão e interiorização do ensino superior.

A preocupação não se restringe às federais. Em São Paulo, a reforma tributária tem transição até 2033 e substitui gradualmente o ICMS, tributo que financia USP, Unesp e Unicamp. Ainda não há sinalização de que os repasses estejam ameaçados, mas é justamente nesse período de transição que a clareza sobre a manutenção desses recursos é indispensável.

Para nós da comunidade da Unesp Bauru, este assunto é nosso dia a dia. O Campus de Bauru, jornal independente produzido por estudantes de uma universidade pública, tem o compromisso de acompanhar decisões que afetam a comunidade acadêmica e cobrar transparência de quem pede o nosso voto, de qualquer partido.

A pergunta que deve orientar o eleitor não é apenas quanto o Estado pretende economizar, mas quais serviços, direitos e instituições serão afetados pelas escolhas orçamentárias. A universidade pública não pode depender de promessas vagas nem de repasses imprevisíveis. Precisa de financiamento sustentável, autonomia e condições para produzir conhecimento em todas as áreas.

Amanhã, dia 25, você não vota apenas pela defesa das universidades públicas; mas pela sobrevivência da pesquisa, da ciência, do progresso nacional, do protagonismo internacional, do desenvolvimento social e pelo futuro de um Brasil livre, prospero e, principalmente, soberano.

Deixe um comentário